O veredito? Os antidepressivos de fato funcionam

Deborah Brauser

Notificação

18 de setembro de 2017

O veredito? Os antidepressivos funcionam.

Pesquisadores esperam que uma nova "mega-análise" encerre a atual controvérsia sobre se os antidepressivos, particularmente os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS), são ou não eficazes contra a depressão

A revisão de 15 estudos com mais de 3.300 pacientes mostrou que, em comparação aos que receberam placebo, os participantes sem eventos adversos precoces que receberam os antidepressivos citalopram ou paroxetina apresentaram redução significativamente maior dos sintomas, segundo avaliação pelo item "humor deprimido" da Hamilton Depression Rating Scale (HDRS).

Pesquisas anteriores sugerem que a superioridade dos antidepressivos seja "meramente consequência psicológica dos efeitos colaterais dos medicamentos, que aumentam a expectativa de melhora", escrevem os pesquisadores.

No entanto, a nova análise mostrou que os pacientes que apresentaram eventos adversos precoces, e estavam recebendo um dos medicamentos ativos, também tiveram redução significativamente maior dos sintomas comparados aos participantes tomando placebo. Isso sugere que "a gravidade dos eventos adversos não foi um indicador de resposta", escrevem os pesquisadores.

"Acho que respondemos de uma vez por todas à questão dos antidepressivos inibidores seletivos da recaptação da serotonina. E, efetivamente, refutamos a teoria dos efeitos colaterais", disse ao Medscape o pesquisador responsável Elias Eriksson, PhD, professor de farmacologia da Göteborgs Universitet, na Suécia.

Elias Eriksson

E qual é a mensagem mais importante para os médicos? "É a de que os antidepressivos inibidores seletivos da recaptação da serotonina funcionam. Podem não funcionar para todos os pacientes, mas funcionam para a maioria dos pacientes. Seria uma pena se o uso deles fosse desestimulado por causa de reportagens em jornais", disse Eriksson.

Os achados foram publicados on-line em 25 de julho no periódico Molecular Psychiatry.

Controvérsia importante

"A possível existência de um efeito farmacológico antidepressivo específico tornou-se uma das principais controvérsias da medicina atual", escrevem os pesquisadores.

Em 2010, um estudo realizado por pesquisadores da University of Pennsylvania e publicado no JAMA , sugeriu que, embora os pacientes com depressão grave possam se beneficiar significativamente do tratamento antidepressivo, haveria pouco ou nenhum benefício para aqueles com depressão de leve a moderada em comparação com o placebo.

A discussão pegou fogo em 2012, quando o programa de notícias norte-americano 60 Minutes transmitiu um episódio com o psicólogo Irving Kirsch, PhD, diretor-associado do Program in Placebo Studies na Harvard Medical School, em Boston, Massachusetts.

Irving Kirsch

O episódio apresentou Kirsch e seu livro The New Emperor's Drugs (As Novas Drogas do Imperador, em tradução livre) no qual afirma não existirem diferenças clínicas na eficácia dos antidepressivos inibidores seletivos da recaptação da serotonina em comparação com placebo para o tratamento da depressão. Isto foi seguido de uma declaração lapidar da American Psychiatric Association (APA) contestando as alegações.

Na época, o recém-eleito presidente da American Psychiatric Association, Dr. Jeffrey Lieberman, médico da Columbia University,em Nova York, disse ao Medscape que essa informação era "enganosa para as pessoas e potencialmente prejudicial para aqueles que realmente sofrem de depressão".

"Houve muitas notícias dentro e fora dos Estados Unidos, sugerindo que os inibidores seletivos da recaptação da serotonina não são eficazes. Por um lado, os pacientes recebem dos médicos a prescrição desses medicamentos, mas, por outro lado, estão lendo os jornais", disse o Dr. Eriksson. "Então nós quisemos esclarecer esse assunto".

Recorte no humor deprimido

Os pesquisadores examinaram os dados de pacientes em ensaios clínicos randomizados e controlados por placebo de depressão maior em adultos, financiados por laboratórios farmacêuticos e registrados na US Food and Drug Administration (FDA) norte-americana, nos quais a Hamilton Depression Rating Scale foi usada para avaliar os efeitos da paroxetina ou do citalopram.

Os eventos adversos comuns dos inibidores seletivos da recaptação da serotonina, como alterações de peso, insônia, disfunção sexual e problemas gastrointestinais, também são possíveis sintomas de depressão listados na soma total da classificação da HDRS-17 (HDRS-17-sum).

Portanto, os pesquisadores optaram por se concentrar em apenas um item da HDRS-17 como desfecho primário: o humor deprimido.

A análise foi feita com 2.759 participantes que completaram ensaios clínicos nos quais a paroxetina foi comparada ao placebo. Destes, 938 pacientes receberam placebo; 421 receberam paroxetina e não apresentaram eventos adversos "precoces", definidos como eventos adversos experimentados nas duas primeiras semanas de tratamento; e 1.399 receberam paroxetina e tiveram eventos adversos precoces.

Também fizeram parte 585 pacientes que completaram ensaios clínicos comparando o citalopram ao placebo. Destes, 132 pacientes receberam placebo, 93 receberam citalopram e não apresentaram eventos adversos precoces, e 360 receberam citalopram e apresentaram eventos adversos precoces.

Os resultados mostraram que nos grupos de tratamento ativo, com e sem eventos adversos, houve redução significativamente maior das pontuações de humor deprimido da Hamilton Depression Rating Scale na sexta semana em comparação aos grupos do placebo.

Tabela. Paroxetina e citalopram vs. placebo: humor deprimido pela Hamilton Depression Rating Scale

Grupo de pacientes Tamanho do efeito Valor de P
Paroxetina sem eventos adversos precoces vs. placebo 0,33 < 0,001
Paroxetina com eventos adversos precoces vs. placebo 0,48 < 0,001
Citalopram sem eventos adversos precoces vs. placebo 0,49 < 0,001
Citalopram com eventos adversos precoces vs. placebo 0,31 0,002

"A descoberta de que tanto a paroxetina quanto o citalopram são claramente superiores ao placebo... quando não produzem eventos adversos, bem como a ausência de associação entre a gravidade e a resposta dos eventos adversos, falam contra a teoria de que os inibidores seletivos da recaptação da serotonina superam o placebo unicamente, ou em grande parte, devido aos seus efeitos colaterais", escrevem os pesquisadores.

Além disso, "nossos resultados corroboram indiretamente a noção de que os dois medicamentos estudados apresentam efeitos antidepressivos genuínos decorrentes de suas propriedades farmacodinâmicas".

Os pacientes tratados com paroxetina apresentando eventos adversos tardios tiveram uma redução pequena dos sintomas, porém significativamente maior, do que aqueles que receberam o medicamento e não apresentaram eventos adversos (tamanho do efeito, 0,15; P = 0,008). Não houve diferença significativa entre os pacientes tratados com citalopram com ou sem eventos adversos precoces.

Sem significado clínico?

Comentando estas descobertas para o Medscape, Kirsch disse que, mesmo que os antidepressivos façam efeito, esse efeito é tão pequeno que não tem significado clínico.

Eriksson respondeu que talvez Kirsch tenha investigado doses baixas demais para serem eficazes. Ele também observou que usar o HDRS-17-sum foi "duramente criticado. Essa medida mostrou não ser fidedigna", razão pela qual eles optaram por se concentrar apenas no item "humor deprimido" da escala. "E tivemos uma diferença impressionante e robusta entre o medicamento ativo e o placebo", acrescentou.

Kirsch observou ainda que a nova análise "foi interessante", mas questionou os pesquisadores por não utilizarem a Hamilton Depression Rating Scale completa.

"É incomum usar apenas um item", disse Kirsch. Mas o mais importante foi que "a diferença de cerca de meio ponto entre o placebo e os medicamentos ativos é tão pequena que não tem significado clínico. Na prática, os médicos que atendem o paciente não observariam nenhuma mudança".

A questão se resume a isso: em que medida a diferença é clinicamente significativa "realmente por causa do medicamento ou da percepção dos pacientes de estarem recebendo o medicamento ativo em vez do placebo, daí o efeito placebo"? disse Kirsch. "Os pesquisadores observaram que isso pode ser o caso, em parte, com um dos dois medicamentos avaliados", acrescentou o psicólogo.

"No entanto, pelas suas descobertas, pelo menos parte dessa pequena diferença entre o medicamento e o placebo pode ser decorrente de algo não relacionado com os efeitos colaterais. Pode muito bem ser, mas atualmente não temos dados suficientes para saber com certeza", disse Kirsch.

"No fim das contas, qual é a causa desta minúscula diferença sem significado clínico? O que se deve fazer é analisar o perfil de efeitos colaterais e os riscos para a saúde, e depois usar o tratamento alternativo mais seguro disponível. O que certamente não será um antidepressivo inibidor seletivo da recaptação da serotonina".

Este estudo foi subsidiado pelo Conselho de Pesquisa Sueco, Seguradora AFA, Fundação Bertil Hållsten's, Fundação Söderberg's, Hospital Universitário Sahlgrenska e pela Fundação Sueca do Cérebro . Eriksson já participou de conselhos consultivos e/ou recebeu honorários de auditoria e/ou pesquisa das empresas Eli Lilly, Servier, GlaxoSmithKlline e de H. Lundbeck. Um dos coautores do estudo recebeu honorários como palestrante da Servier. Os outros dois coautores e Kirsch informaram não possuir conflitos de interesses relevantes ao tema.

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....