Antipsicóticos utilizados em excesso em adultos com deficiência intelectual

Megan Brooks

Notificação

7 de setembro de 2017

Antipsicóticos são prescritos com frequência a adultos com deficiências intelectual e do desenvolvimento (IDDs), muitas vezes sem haver um diagnóstico psiquiátrico documentado.

Pesquisadores descobriram que mais de um terço dos adultos com alguma IDD, tais como autismo, síndrome de Down ou síndrome do alcoolismo fetal, foram tratados com medicação antipsicótica, sendo que mais de um quarto desses indivíduos não tinha diagnóstico psiquiátrico documentado.

"Pesquisas de diferentes países apresentaram esta questão", disse ao Medscape  a pesquisadora principal, Yona Lunsky, PhD, do Institute for Clinical Evaluative Sciences e do Centre for Addiction and Mental Health, Toronto (Canadá).

"Houve uma maior atenção para esta questão no Reino Unido, onde foram publicados comentários destacando este problema durante vários anos. Achamos que era importante observar o que está acontecendo em Ontário, que é a maior província do Canadá, como um primeiro passo para tentar criar melhores práticas em ralação à prescrição", disse a Dra. Lunsky.

O estudo foi publicado on-line em 23 de agosto, no Canadian Journal of Psychiatry.

Restrições químicas?

Os pesquisadores examinaram os dados médicos de 51.881 adultos com IDDs que tinham menos de 65 anos a partir de abril de 2010, e que estiveram recebendo medicamentos por meio dos benefícios provinciais em Ontário. Eles foram acompanhados até março de 2016.

Durante o período de seis anos de acompanhamento, 39,2% dos adultos (n = 20.316) receberam prescrição de medicamento antipsicótico, e 28,9% deles não tinham um diagnóstico psiquiátrico documentado. Em um subgrupo de 7.219 indivíduos que moram em lares comunitários, 56,4% (n = 4.073) receberam prescrição de medicamento antipsicótico, e 42,9% deles não tinham um diagnóstico psiquiátrico documentado.

"Não sabemos por que estão recebendo a prescrição a partir deste estudo, e não podemos afirmar com que frequência essa prescrição estava correta ou não", explicou a Dra. Lunsky.

No entanto, os resultados "nos fazem questionar com que frequência os antipsicóticos estão sendo utilizados como uma ferramenta para lidar com dificuldades comportamentais. Precisamos entender melhor por que estes medicamentos são prescritos para pessoas que não apresentam distúrbios mentais, que outros passos foram dados antes da medicação, e o quão satisfatoriamente estes medicamentos estão sendo monitorados", acrescentou ela em um comunicado à imprensa.

"Esperamos que este estudo possa gerar debates em relação a por que isso ocorre e o que fazer a respeito. As soluções precisam ser multidimensionadas", disse.

Comentando sobre as descobertas para o Medscape, a Dra. Melissa Nishawala, diretora do Autism Spectrum Disorder Clinical & Research Program da NYU Langone Health, Nova York, observou que o estudo se assemelha a pesquisas anteriores, mostrando uso excessivo de antipsicóticos em outras populações, inclusive adultos com demência e jovens em orfanatos ou sob cuidados residenciais.

Ela observou que, apesar das evidências anedóticas indicando padrões de prescrição semelhantes em pacientes com IDDs, poucos estudos documentaram o uso de antipsicóticos nos EUA nesta população.

"Esta importante pesquisa inicia um diálogo sobre o assunto, e espera-se que leve a uma atenção maior sobre isso aqui nos EUA", afirmou o Dr. Nishawala, que também é diretor clínico do Eating Disorders Service no The Child Study Center da NYU Langone Health.

Medicamentos antipsicóticos têm um "amplo quadro de efeitos secundários, incluindo metabólicos, como ganho de peso, dislipidemia e estados de pré-diabetes, bem como distúrbios de movimento potencialmente irreversíveis, como discinesia tardia", ressaltou.

Portanto, é "essencial que indivíduos que recebam prescrições desta classe de medicamentos sejam submetidos a uma avaliação psiquiátrica completa, com uma indicação clara para o uso, e um monitoramento detalhado dos benefícios e potenciais efeitos secundários. Espera-se que a avaliação psiquiátrica cuidadosa, bem como o monitoramento, levem a diagnósticos mais precisos, o que poderia resultar em encaminhamento para tratamentos comportamentais ou uso de medicamentos com quadros de efeitos secundários mais favoráveis, explicou o Dr. Nishawala.

O Dr. Victor Fornari, diretor da Psiquiatria Infantojuvenil do Zucker Hillside Hospital, Glen Oaks, Nova York, disse ao Medscape que, em função dos efeitos colaterais dos antipsicóticos, "procuramos não prescrevê-los, a menos que seja clinicamente necessário".

"Sabemos que eles podem ser usados para controles comportamentais, mas também sabemos que há muitas abordagens não farmacológicas para controles comportamentais que deveriam ser implementadas antes de usar este tipo de restrição química", afirmou o Dr. Fornari.

"Quando postas em prática, as estratégias de gerenciamento comportamental para esta população podem ser muito efetivas. Entretanto, a equipe precisa de um treinamento intensivo e vigilância constante para certificar-se de que os planos comportamentais estão sendo seguidos. Esta classe de medicamentos pode ser utilizada quando as estratégias de gerenciamento comportamental não foram adequadas", adicionou.

"Sob condições ideais, se você for prescrever um medicamento antipsicótico, precisa ter uma documentação clara para a indicação, e se houver uma doença psicológica além do distúrbio de desenvolvimento, ela deve ser claramente indicada. Mas sabemos que muitas vezes eles são usadas simplesmente para controle comportamental, para sedação, como limitador químico, e isto deve ser minimizado", comentou o Dr. Fornari.

O estudo foi apoiado pelo Institute for Clinical Evaluative Sciences. Os autores Dr. Nishawala e Dr. Fornari  revelaram não possuir conflitos de interesses relevantes.

Can J Psych. Publicado on-line em 23 de agosto de 2017. Resumo

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