Mecanismo proposto para a doença renal de etiologia desconhecida

Pam Harrison

18 de agosto de 2017

Madri – Uma epidemia de doença renal crônica que não está associada a nenhum dos fatores de risco habituais, como hipertensão e diabetes, pode ser decorrente de lesão renal recorrente relacionada com a desidratação, disse um especialista no 54º congresso da European Renal Association e European Dialysis and Transplant Association.

Do pódio, o Dr. Richard Johnson, médico do University of Colorado Hospital, em Aurora, informou que as pessoas que trabalham ao ar livre em locais quentes em todo o mundo, principalmente os homens, estão morrendo de insuficiência renal, e tudo indica que o estresse por calor seja um grande fator de risco.

Para testar essa teoria, Dr. Johnson e colaboradores criaram um modelo murino de desidratação recorrente provocada pela exposição ao calor. "Os camundongos tiveram insuficiência renal e fibrose tubulointersticial após cinco semanas", informaram os pesquisadores (Kidney Int. 2014;86:294-302).

Uma via implicada na lesão renal é um sistema enzimático nos túbulos proximais.

Este sistema enzimático converte a glicose em frutose, que é então metabolizada pela enzima frutoquinase, liberando estresse oxidativo e ácido úrico, que podem causar lesão tubular local. Os pesquisadores indicaram que os camundongos knockout cuja enzima frutoquinase tinha sido inativada estavam protegidos contra as lesões renais, apesar de serem expostos à desidratação recorrente.

Esta pesquisa pode ter implicações para os trabalhadores em situação de risco. A lesão renal foi evitada quando os camundongos foram reidratados imediatamente após cada ciclo de desidratação, mas não se os camundongos só receberam a mesma hidratação no final do dia, segundo a equipe.

"A prática de exercícios sob estresse térmico reconhecidamente causa rabdomiólise subclínica, que está associada à liberação de nucleotídeos e ao aumento do ácido úrico sérico", destacou o Dr. Johnson. De fato, a hiperuricemia é comumente observada nas pessoas com nefropatia por estresse decorrente do calor.

Em um estudo feito com 189 trabalhadores na colheita da cana-de-açúcar em El Salvador, do qual o Dr. Johnson fez parte, o nível médio de ácido úrico sérico era de 6,5 mg/dL pela manhã, quando a temperatura ambiente era relativamente fresca, e 7,2 mg/dL à tarde, depois de os trabalhadores terem passado a maior parte do dia sob o calor do sol (Am J Kidney Dis. 2016;67:20-30).

"A hiperuricemia é comum nos trabalhadores que colhem a cana-de-açúcar, e muitas vezes se agrava durante o dia de trabalho", concluem os pesquisadores.

Dados piloto dos mesmos trabalhadores da colheita de cana-de-açúcar salvadorenhos mostraram que o pH da urina diminuiu à medida que o dia avançou. E "quando corrigido pelo pH, o aumento do ácido úrico na urina é drástico", informou o Dr. Johnson.

Na verdade, alguns trabalhadores da colheita da cana-de-açúcar apresentaram níveis de ácido úrico na urina semelhantes aos observados em pacientes que sofrem de lesão renal aguda após a quimioterapia, acrescentou o pesquisador, observando que a hiperuricemia é um fator de risco reconhecido de lesão renal aguda e crônica.

A disúria frequentemente referida por esses trabalhadores pode estar relacionada com a formação precoce de litíase, dado que os cristais de urato são comumente visíveis na urina.

"A nefropatia mesoamericana pode ser causada por episódios repetidos de hiperuricosúria, e pela formação de cristais de urato que ocorre nos casos de trabalho árduo nos dias quentes, quando a hidratação é limitada ou atrasada", informam os pesquisadores.

Em um estudo recente projetado para testar o efeito de uma intervenção com administração de água, descanso e sombra entre trabalhadores na colheita da cana-de-açúcar, os pesquisadores constataram modificações nos marcadores biológicos que indicavam a desidratação, e uma taxa de filtração glomerular estimada reduzida durante o dia de trabalho (Scand J Work Environ Health. Publicado on-line em 7 de julho de 2017). As mudanças foram menos pronunciadas no grupo da intervenção – que teve acesso a reservatórios de água portáteis, tendas móveis e sombreadas, e períodos de repouso programados – do que no grupo que não teve acesso à intervenção. Mais pesquisas precisam ser feitas para determinar se esta redução se correlaciona à redução do risco de doença renal, informam os pesquisadores.

O Dr. Johnson é membro do Colorado Research Partners, que está desenvolvendo inibidores do metabolismo da frutose, é membro do conselho científico e tem ações da XORT Therapeutics.

European Renal Association-European Dialysis and Transplant Association (ERA-EDTA) 54th Congress. Apresentado em 5 de junho de 2017.

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