Desafio Clínico: jovem de 21 anos apresenta isolamento social e pensamentos persecutórios

Dr. Sivan Mauer 

Notificação

2 de agosto de 2017

História Clínica

Paciente do sexo masculino, 21 anos, solteiro, filho único, chega à emergência psiquiátrica junto com a mãe e o padrasto. A mãe relata que o filho vem apresentado mudanças no comportamento há cerca de um mês. O paciente tem ficado mais isolado. Além disso, está mais desconfiado, dizendo até mesmo que vem sendo perseguido pela polícia. A mãe tem a sensação de que o filho deixou de sentir emoções, e alega ainda que esta não é a primeira vez que isto acontece. Segundo ela, o paciente já teve ao menos três episódios parecidos com este, e na maioria das vezes desencadeado pelo abandono da medicação. A mãe decidiu trazer o filho pois há uma semana se nega a comer dizendo que "traficantes" estão envenenando a comida dele.

A mãe relata que o paciente teve o primeiro episódio com 16 anos. Nessa época ela descobriu que o filho fazia uso de Cannabis. Ela relata que houve uma importante mudança no comportamento do filho, que era bastante sociável, tinha muitos amigos na escola, mas começou a ficar mais isolado, e a não querer mais ter contato com os colegas. O paciente inclusive terminou um relacionamento com uma namorada, pois achava que ela o estava traindo. A mãe comenta que se viu obrigada a interná-lo contra a própria vontade, pois o filho começou a recusar alimentação. Na época, ele dizia que o padrasto estaria envenenando a comida dele a mando de seres superiores. Contudo, a mãe relata que o padrasto e o filho tinham uma boa relação, antes de começar as suspeitas de envenenamento. O filho foi então medicado com olanzapina, chegando a usar a dosagem de 20mg/dia. Ela comenta que o jovem voltou a ir para escola e, no ano seguinte, passou no vestibular. Do ponto de vista social, no entanto, não voltou a ter a mesma desenvoltura, permanecendo mais retraído.

Com 18 anos, já no segundo ano da faculdade, o paciente teve a primeira recidiva. Ela conta que o filho teve um aumento de peso de 20 kg em um ano e meio, fato que o incomodava e o deixava o ainda mais introvertido. Aos poucos ele começou a deixar de frequentar os encontros de terapia de grupo, além de começar a fazer uso de tabaco. Na época, a administração da medicação ficava sob a responsabilidade do paciente. O que parecia ser uma desconfiança virou uma certeza para mãe quando ela achou vários comprimidos embaixo da cama do paciente. Ela então ligou para o psiquiatra para saber como deveria lidar com a situação e o médico relatou, para surpresa dela, que o paciente não havia comparecido à última consulta. Orientada pelo psiquiatra a mãe levou o filho a um hospital onde o paciente ficou 20 dias internado e saiu com a prescrição de 4mg/dia de risperidona.

O paciente então tentou voltar para a faculdade, mas não conseguia mais acompanhar a turma, pois tinha muita dificuldade para memorizar o conteúdo e para prestar atenção às aulas. Alguns professores relataram que ele ficava sentado na sala com um olhar parado e distante, e não interagia com os demais colegas. Não demorou muito tempo e o paciente decidiu abandonar o curso, pois "ETs" haviam tentado abduzi-lo para outro planeta. Não precisava mais nenhum outro sintoma para mãe saber que o filho deveria voltar para o hospital. Mais uma vez o paciente tinha abandonado o uso da medicação. O período de intervalo entre as duas primeiras internações foi de um ano e meio. Desta vez, o paciente, com 20 anos de idade, estava na terceira internação, onde ficou quinze dias e saiu usando 300 mg de quetiapina XRO.

Com relação a história familiar, a mãe relata que ela mesma tem o diagnóstico de transtorno afetivo bipolar. Por parte de pai o paciente tem uma bisavó que tinha algum transtorno psiquiátrico, mas ela não sabe exatamente o diagnóstico, além do tio que já enfrentou diversas internações psiquiátricas parecidas com as do paciente, mas o diagnóstico também nunca ficou claro.

Exame do estado mental

O paciente orientado, estava trajando bermuda por cima da calça de ginástica. Usava uma blusa de lã que não condizia com o dia de verão. A higiene dele era precária, e o odor de suor e urina se misturavam no ambiente. O cabelo estava desarrumado e parecia oleoso. O corpo tinha um aspecto emagrecido. O paciente permaneceu calado a maior parte da entrevista, mas em alguns momentos ria sem a menor motivação aparente. Seu afeto parecia plano. Quando perguntado o paciente se recusava a responder as perguntas, apenas dizia que "eles" estão vindo. Questionado sobre o próprio problema de saúde o paciente apenas respondeu que "não tenho nada a declarar. Tudo isto é um plano deles para acabar com a minha vida".

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