Médicos e depressão: sofrendo em silêncio

Dra. Pamela L. Wible

Notificação

23 de maio de 2017

Muitos médicos deprimidos não buscam ajuda

Médicos também ficam tristes, como qualquer pessoa. Então, como eles devem lidar quando dias tristes viram semanas ou até meses? Existem fatores específicos que levam os médicos à depressão? Eles são diferentes da população em geral na forma com que respondem à depressão? Quais tratamentos buscam ou evitam?

Aqui está o que muitos médicos depressivos fazem: nada. Ou tentam alternativas que não ajudam.

Entrevistei recentemente 200 médicos que sofreram de depressão durante suas carreiras, e perguntei quais tratamentos eles buscaram. Os resultados foram: 33% escolheram ajuda profissional, 27% optaram pelo autocuidado, 14% adotaram comportamentos autodestrutivos, 10% não fizeram nada, 6% mudaram de emprego, 5% aderiram à automedicação, 4% buscaram outros recursos que não estes, e 1% rezaram.

Muitos médicos tentaram múltiplos tratamentos. Infelizmente, a maioria daqueles com quem conversei não fez nada durante meses e anos, até finalmente decidir tomar alguma atitude – em alguns casos, autoagressão. Ajuda profissional geralmente não era a terapia de primeira linha. Este artigo apresenta um resumo qualitativo dos meus achados e comentários médicos relacionados. 

Eu venho administrando uma linha telefônica de apoio a suicídios médicos desde 2012 e tive a oportunidade de ajudar centenas de médicos depressivos e suicidas. Estes profissionais certamente enfrentam circunstâncias únicas durante suas carreiras que os levam a depressão, como bullying, trote, privação de sono e investigações de conselhos médicos – além de estarem expostos quase diariamente ao sofrimento e à morte.

No entanto, médicos também sofrem de depressão pelos mesmos motivos que a maioria da população: por exemplo, um casamento malsucedido ou a morte de um ente querido. Mas mesmo nestes casos, ser um médico pode tornar os fatores de risco comuns para depressão ainda mais ampliados.

Fatores de risco comuns para depressão

Casamento malsucedido. Um relacionamento em condições precárias desestabiliza qualquer um, no entanto, os médicos são mais propensos a fracassarem em seus casamentos devido à negligência conjugal. Médicos não têm 40 horas semanais previsíveis de trabalho. Normalmente não estão em casa para o jantar. Têm escalas irregulares que exigem finais de semana e plantões noturnos, rotineiramente perdem eventos familiares, atividades dos filhos e feriados. Mesmo depois de terem terminado o dia de trabalho, muitos ainda precisam de horas para se acalmar e relaxar e dependem de seus parceiros para apoio emocional – correndo o risco de esgotar em vez de fortalecer suas relações íntimas primárias. Ser médico é um estressor conjugal.

Isolamento social. Solidão pode levar qualquer um à depressão e os médicos têm um alto risco de isolamento social. A rotina de treinamentos e trabalhos de mais de 80 horas semanais deixa pouco tempo para família e amigos. Mesmo quando não estão trabalhando estão falando sobre medicina, pensando nos pacientes, estudando para provas, ou acumulando créditos de educação médica continuada. Introvertidos, estudiosos e pensadores existenciais natos altamente inteligentes, os médicos podem ter mais dificuldade em criar amizades do que a população em geral.

Ser um médico é um fator de risco independente para isolamento social. Sue resume seu dilema: "Eu vejo casais apaixonados na igreja e aceito que não haverá um príncipe encantado para mim. Não haverá ninguém para cuidar de mim quando vier o câncer de mama. Não há poupança, nem aposentadoria. Como eu presto atendimento domiciliar e cuidados para os que estão à beira da morte, sei que não haverá o tal médico amoroso para mim."[1]

Morte do cônjuge. Médicos são especificamente afetados pela morte de um companheiro, porque têm menos tempo para desenvolver um sistema de apoio do que a maioria da população em geral. A morte de um cônjuge pode ser um evento devastador para médicos do sexo masculino, que parecem ter maior risco para depressão, pois normalmente contam com seus parceiros conjugais para apoio emocional e com maior frequência se recusam a pedir ajuda ou a parecerem vulneráveis aos amigos e colegas em comparação a seus pares do sexo feminino. 

Dificuldades financeiras. Embora os médicos tenham maior capacidade de ganhar melhores salários do que a maioria da população em geral, normalmente guardam menos e gastam mais em empréstimos estudantis, carros e casas, devido às expectativas familiares e culturais. Muitos médicos são explorados financeiramente por empregadores antiéticos, outros profissionais, ou até amigos e familiares que acreditam que "todos os médicos são ricos". Médicos também podem tomar decisões financeiras ruins, agravando ainda mais a própria incapacidade de construir uma reserva financeira até muito mais tarde do que a maioria. Alguns ainda possuem dívidas de empréstimos estudantis aos 50 ou 60 anos de idade, e guardaram pouco para a aposentadoria.

Traumas de infância. O abuso sexual, emocional e físico precoce aumenta o risco de depressão para todos. Alguns médicos compartilharam que estas feridas ocorridas na infância os incentivaram a entrar em uma faculdade de medicina para que pudessem ajudar o próximo. Fazer medicina para ser um "curador de feridas" e se submeter a essa cultura de autonegligência durante e após a faculdade (sem fácil acesso a cuidados de saúde mental não-punitivos) desestabiliza ainda mais esses médicos em situação de risco.

Histórico familiar de depressão. Tanto médicos quanto outros profissionais cujos pais sofrem de depressão, têm maior risco de também desenvolverem o distúrbio. No entanto, em nenhum momento no processo de inscrição para o curso de medicina fica claro para estes potenciais estudantes e seus familiares, que como alunos eles estarão sob maior risco de experimentar depressão (e suicídio) devido à própria faculdade de medicina. Até 43,2% dos residentes têm depressão ou sintomas depressivos.[2] Um termo de consentimento livre e esclarecido deve ser uniformemente exigido para alertar esses indivíduos sobre os riscos adicionais de saúde mental impostos pela faculdade de medicina antes deles se candidatarem.

Aposentadoria. Um grande acontecimento da vida, como a aposentadoria, pode levar muitas pessoas à depressão – e quando a identidade de uma pessoa está fortemente atrelada à carreira, assim como é para os médicos, a depressão pode ser muito pior. Como observado anteriormente, muitos médicos não guardam muito dinheiro para se aposentarem confortavelmente, e outros não desenvolveram uma vida pessoal depois de dedicarem tanto a carreira a cuidar do próximo.

O que fazem os médicos deprimidos?

O que os médicos fazem quando estão deprimidos? Simplesmente vão ao médico? A maioria não.

Muitos médicos não fazem nada. O treinamento médico nos ensina a "aguentar o tranco", então buscar ajuda não é uma habilidade bem-vista entre os colegas da profissão. Muitos carecem de autoconhecimento para identificar que estão depressivos. Como a maioria dos médicos é sobrecarregada, exausta e descontente, eles não se enxergam necessariamente como um ponto fora da curva. Eles normalizam a angústia e fingem que não é tão ruim quanto parece. Distração, evasão e negação são táticas populares entre médicos deprimidos. Acredito que a maioria dos médicos não busca o tratamento apropriado que recomendaria aos próprios pacientes depressivos. "Creio que sua avaliação é, infelizmente, bastante precisa. E eu sou uma psiquiatra", confirma a Dra. Shannon Sniff.

Estratégias de auto-tratamento

Auto-distração. Como um médico que está deprimido, escolho ignorar minha própria condição ao me tornar obsessivo pelas vidas terríveis dos meus pacientes – além do mais, serei pago por isso! Este é o método mais popular (e incentivado) de auto-distração dos médicos: trabalhar compulsivamente. Mesmo "após o trabalho", médicos se distraem com planilhas intermináveis, jogos estúpidos de computador, Facebook (incluindo grupos médicos), assistem excessivamente ao Netflix, ou fogem da realidade com romances e mistérios fictícios. Médicos mais jovens podem ir a festas com os amigos.

Auto-calmantes. Cozinhar e comer em excesso pode aliviar temporariamente os sintomas depressivos. Chocolate amargo é o preferido, seguido de outros petiscos açucarados, tais como donuts e doces que ficam nas estações dos enfermeiros e nas salas de conforto médico. No começo da minha carreira, lembro de representantes de medicamentos cobrindo minha mesa com bombons de pasta de amendoim, que eu usaria como mini antidepressivos enquanto trabalhava em minhas planilhas. É claro que, se autotranquilizar com comida pode se transformar em ganho de peso autodestrutivo.

Autocuidado. Um cirurgião uma vez me disse, "Se você está depressivo, só precisa de um descanso profundo". Alguns médicos são cronicamente privados de sono, portanto dormir ou relaxar nas férias é a estratégia usada para o autocuidado. O exercício obsessivo também é extremamente popular. Cuidado: crossfit, correr maratonas, ou fazer levantamento de peso, embora sejam ótimos para depressão, podem se tornar um vício e causar lesões.

Outros leem livros de autoajuda, rezam, meditam, praticam ioga, cantam, dançam, escutam música, ou brincam com as crianças/animais de estimação. Alguns acumulam cartões de agradecimento que recebem dos pacientes para lerem quando estão deprimidos. Relembrar pacientes agradecidos é uma forma de auto-afirmação que reconstrói a confiança e a autoestima.

O auto-cuidado pode incluir sair de trabalhos em tempo integral ou abandonar a medicina completamente. Um médico escreve: "O que eu fiz? Larguei meu trabalho! Haha". Outro compartilha, "Eu tentei o auto-cuidado, mas fui tão malsucedido que isso dificilmente conta como uma ação. Acabou sendo mais uma aspiração, e o fracasso diário levou a comportamentos e pensamentos autodestrutivos".

Hobbies. Já me disseram, "existe uma linha tênue entre um hobby e uma doença mental". Muitos médicos começam a fazer trabalhos manuais para tratar depressão. Como meu casamento estava acabando, criei um mural de mosaico lindo para o meu banheiro (que acabei perdendo no meu divórcio). Muitas médicas fazem tricô. Ann Secord, uma patologista, compartilha, "Eu faço tricô. Muito. Eu deveria ter lembrado o quanto amo tricotar quando estava na minha fase mais depressiva, na marinha. Ultimamente, comecei a tocar ukulele. Quase todos os dias. Acho que é impossível estar depressivo e tocar ukulele". A terapia de compras também é um hobby popular entre os americanos.

Liberação emocional. Os médicos revelaram chorar debaixo de suas mesas entre um paciente e outro, chorar em seus closets e chorar até dormir no conforto médico. Na verdade, um médico me enviou uma foto sua chorando de soluçar no chão do banheiro. Outro admitiu quebrar coisas. A Dra. Michele Parker compartilhou, "Eu costumava ir ao parque Six Flags como uma forma de terapia para gritar na montanha russa. Louca".

Autoprescrição. Enquanto alguns médicos se auto prescrevem, outros roubam amostras de medicamentos de seus consultórios ou os compram pela internet, para que não haja registro. Caroline compartilha, "Eu tomei a ritalina do meu filho para tentar ser mais eficiente e sobreviver ao sono, e me autoprescrevi duloxetina".

Buscar ajuda entre os colegas

Embora muitos médicos falem com seus familiares e amigos, a forma mais comum de buscar suporte profissional é se queixar para os colegas no trabalho ou on-line. "Meus amigos e eu fizemos o teste online PHQ-9 [Patient Health Questionnaire] que mostrou que estávamos gravemente depressivos. Nós rimos e voltamos ao trabalho", declara a Dra. Shola Shade Ezeokoli.

Alguns médicos deprimidos na verdade buscam o tratamento apropriado com seus médicos generalistas, psiquiatras ou terapeutas. Para manter as consultas fora de seu registro médico oficial, alguns usam nomes falsos, pagam em dinheiro, e procuram tratamento fora da cidade em que vivem, para prevenir investigações de conselhos médicos, e evitam colegas locais (por preocupações com a confidencialidade). Inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRSs) parecem ser a classe de medicação mais popular prescrita para médicos depressivos.

"Durante a minha residência", compartilhou Dr. Joel Cooper, "Eu descobri que pelo menos 75% dos meus amigos residentes estavam tomando ISRSs ou outros antidepressivos, para apenas conseguirem sobreviver a essa fase, porque realmente era terrível. Depressão ou um estado depressivo constante é um tanto quanto comum na faculdade de medicina e durante a residência. "É realmente uma surpresa que mais médicos não morram por suicídio enquanto passam por este processo longo, rigoroso e muitas vezes cruel".

Uma razão pela qual os médicos se submetem a tratamentos em segredo é para evitar serem encaminhados para um Physician Health Program (PHP). "Meu diretor médico sugeriu que eu fizesse um auto-encaminhamento ao PHP daqui", diz Adam. "Então eu liguei (e não disse meu nome) e fiquei chocado com o quão inúteis eles foram. Descreveram todo o processo, que atrasaria o meu retorno ao trabalho. Eu seria forçado a concordar com anos de monitoramento e pagar por múltiplas avaliações e testes de drogas aleatórios (mesmo que eu não tenha um problema com abuso de substâncias. Eu posso estar mentalmente doente, mas não sou louco! Parecia ser punitivo e direcionado a médicos viciados, com nada a oferecer a todos os outros."[3]

Devido à natureza punitiva de programas de tratamento médico, como os PHPs, e à prevalência de questões intrusivas sobre a saúde mental nas aplicações de licenciamento médico, privilégios hospitalares e de credenciamento de seguros, muitos médicos evitam buscar a ajuda necessária.

Autodestruição do médico

Os males auto-infligidos dos médicos podem assumir a forma de padrões de pensamentos autodestrutivos, vícios, e até mesmo suicídio. Beber após o trabalho é comum entre médicos depressivos e pode facilmente se intensificar, virando uma rotina perigosa. Uma médica chamada Paula declarou[4]:

Recentemente reconheci os sinais e fiquei assustada – se uma taça de vinho me acalma ao final de um dia cheio de pacientes difíceis, familiares e esperanças pouco realistas em torno de expectativa de vida, desfechos de doença, e privilégios culturais, então duas taças fazem isso melhor! Ao começar a antecipar o "copo-amigo" que me aguardava ao final de um dia de "documente-isto-direito-ou-seja-processada", eu abruptamente deixava tudo de lado por um chá quente ou suco de laranja. Honestamente, me assustei muito com a facilidade com que o álcool me acalmou e não fez perguntas – e como eu justifiquei isso tão naturalmente. Se você acha que não pode acontecer com você...

Comportamentos autodestrutivos também podem incluir ter um caso extraconjugal, continuar segurando o bisturi ao fim de um procedimento, acumular pílulas e comprar uma arma. Alguns médicos param de olhar para os dois lados da rua ao atravessar, o que pode ser chamado de "tentativa de suicídio acidental". Aqueles que falham na agressão auto-infligida como primeira estratégia de tratamento para a depressão, eventualmente recorrem ao autocuidado e, em seguida, buscam ajuda profissional de um médico.

Outros mantêm planos suicidas de back-up como conforto. "Tenho sido ativamente suicida nos últimos sete anos mais vezes do que posso contar", afirma um médico chamado Mike. "De uma forma estranha, esta se tornou uma das poucas áreas/estados de conforto constante em que sinto que exerço algum grau de controle e autonomia. O que eu acho que experimento quando se trata da minha profissão vai além da "depressão clínica". É o esgotamento da humanidade de uma pessoa".

Conclusão

Infelizmente, muitos médicos continuam a sofrer de depressão não tratada ou mal tratada, devido ao medo de buscar tratamento em um ambiente que estigmatiza e pune os profissionais com problemas de saúde mental. De fato, muitos experimentam depressão induzida pelo trabalho, e aqueles que têm fatores de risco para depressão não ligados à carreira são mais propensos a sofrer da doença do que a maioria da população em geral, devido ao tremendo auto-sacrifício exigido de nossos médicos.

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