Episódio de automutilação aumenta drasticamente risco de suicídio em um ano

Nancy A. Melville

Notificação

5 de abril de 2017

Um episódio de automutilação aumenta drasticamente o risco de suicídio em um ano, mostra nova pesquisa.

Pesquisadores do Columbia University Medical Center, em Nova York descobriram que durante os 12 meses após um episódio de automutilação não fatal, o índice de suicídio consumado foi 37 vezes maior do que em uma coorte populacional pareada. Os autores também descobriram que o índice de suicídio foi ainda maior quando o evento inicial da automutilação envolveu um método violento, como o uso de uma arma, em comparação com um método não violento, e que esse risco foi maior nos 30 primeiros dias após o primeiro episódio.

"Adultos que procuram tratamento depois de se automutilar em geral exigem atendimento médico de urgência. No entanto, esses pacientes também oferecem oportunidades clínicas para a prevenção do suicídio", disse ao Medscape o primeiro autor Dr. Mark Olfson, médico e professor de psiquiatria no Columbia University Medical Center.

"Eles encontram-se em risco excepcionalmente alto de suicídio em curto prazo, e o atendimento clínico deve se concentrar em garantir a segurança deles, especialmente nas primeiras semanas, que são críticas", acrescentou o Dr. Olfson.

O estudo foi publicado on-line em 21 de março no periódico American Journal of Psychiatry.

Vigilância precoce necessária

Embora estudos anteriores tenham mostrado que um em cada sete adultos que cometem suicídio haviam sido tratados por automutilação no ano anterior, as tentativas de identificar os marcadores específicos de risco de suicídio nesses pacientes vêm sendo dificultadas pelos números globais de suicídios relativamente baixos.

Para melhor determinar o risco usando uma população maior, Dr. Olfson e colaboradores avaliaram no banco de dados nacional do Medicaid dados sobre adultos com diagnóstico de eventos de automutilação não fatal e para os quais havia informações disponíveis sobre até um ano de acompanhamento.

Os pesquisadores descobriram que entre 61.297 pacientes com eventos de automutilação, 19,7% (12.012) foram tratados durante eventos de automutilação não fatal repetidos em um ano; 0,16% (99) cometeram suicídio nos trinta primeiros dias após o evento de automutilação; e 0,23% (144) o fizeram nos 335 dias subsequentes.

Apesar dos baixos percentuais, o índice de suicídio em um ano, de 439,1 por 100.000 pessoas-ano é 37,2 vezes maior do que o índice de 11,8 por 100.000 pessoas-ano na população em geral, informam os autores.

O uso de métodos violentos no evento inicial de automutilação foi associado a um risco significativamente maior de morte por suicídio em comparação aos eventos não violentos (hazard ratio, HR = 7,5; intervalo de confiança, IC, de 95%, de 5,5 a 10,1), com o risco ainda mais elevado especificamente com o uso de armas de fogo (hazard ratio = 15,86; IC de 95%, de 10,7 a 23,4), em comparação com uma referência de envenenamento.

No entanto, o aumento do risco de suicídio associado a um método violento vs. um método não violento só foi significativo nos trinta primeiros dias após o evento inicial de automutilação (hazard ratio = 17,5; IC de 95%, de 11,2 a 27,3), e não nos 335 dias subsequentes.

"Entre aqueles que sobreviveram à automutilação com métodos violentos, o risco de efetivar o suicídio durante o mês seguinte foi aproximadamente 10 vezes maior do que o risco ao longo dos 11 meses subsequentes", observam os autores.

Dr. Olfson disse a concentração do aumento do risco apenas nos 30 primeiros dias foi uma surpresa.

"Nós acreditávamos que as pessoas que usaram métodos violentos permaneceriam com maior risco. Esta descoberta ressalta a importância crítica do trabalho para garantir a segurança dos pacientes que usam métodos de automutilação violentos durante as primeiras semanas após a ocorrência", disse o pesquisador.

Lembrança dolorosa de armas de fogo

Como esperado, o uso de métodos violentos no primeiro evento de automutilação teve muito mais probabilidade de resultar em morte: dois terços dos suicídios consumados foram cometidos por meio de métodos violentos, e mais de 40% de todas as mortes por suicídio iniciais ocorreram por armas de fogo.

"Estes resultados oferecem uma lembrança dolorosa da necessidade urgente de manter as armas de fogo longe das pessoas que as usaram para se prejudicar", disse o Dr. Olfson.

Os homens tiveram uma probabilidade duas vezes maior de morrer por suicídio do que as mulheres (0,63% vs. 0,28%), e adultos mais velhos tiveram probabilidade mais de três vezes maior de cometer suicídio do que os adultos mais jovens (0,76% vs. 0,21).

O risco foi também mais elevado entre os adultos brancos (0,45%) do que entre os adultos negros (0,14%) ou hispânicos (0,26%).

Essas diferenças entre os sexos podem ser atribuídas à tendência masculina de usar métodos mais letais, e a intenção suicida também tende a ser maior entre os pacientes com episódios de automutilação do sexo masculino do que os do sexo feminino", observam os autores.

Os pesquisadores acrescentam que entre aqueles cujo evento de automutilação inicial foi fatal, apenas 40,7% realizaram acompanhamento psicológico ambulatorial durante os últimos seis meses de vida.

As conclusões do estudo vão ao encontro das apresentadas em um trabalho finlandês publicado no periódico American Journal of Epidemiology. Esse estudo, realizado com pacientes que haviam sido hospitalizados por tentativas de suicídio, informou que o risco de suicídio foi maior durante a primeira semana após a alta hospitalar.

No entanto, este estudo não avaliou separadamente o risco para os pacientes do sexo masculino e feminino, dizem os autores.

O presente estudo é notável por proporcionar perspectivas sobre o risco de suicídio durante um período de alto risco específico, disse Dr. Olfson.

"Nenhum outro estudo avaliou o risco de suicídio durante um período de menos de um ano depois de uma automutilação", disse ele. "No entanto, são os horizontes próximos que têm a maior importância clínica para os pacientes e seus familiares".

O estudo recebeu subsídio dos National Institutes of Health e da Agency for Healthcare Research and Quality. Dr. Olfson declarou não possuir conflitos de interesse relevantes ao tema. O coautor Dr. Shuai Wang, médico, é funcionário da empresa Quartet Health. O coautor Tobias Gerhard,farmacêutico, recebeu financiamento de pesquisa da Bristol-Myers Squibb; atua em um comitê de revisão de segurança externo para um estudo da Merck; fornece pareceres especializados para os escritórios de advocacia em nome da Roche e da Pfizer.

Am J Psychiatry. Published on-line March 21, 2017. Resumo

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