Surtos de febre amarela vêm em ciclos, afirmam historiadores

Teresa Santos e Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

24 de março de 2017

Dados da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde[1] apontam para 1.561 casos notificados de febre amarela no Brasil e 264 óbitos até 20 de março. As notificações foram feitas em 188 municípios de oito estados. Na Região Sudeste, o surto atingiu principalmente Minas Gerais e o Espírito Santo, mas o registro do terceiro caso em Casimiro de Abreu, no interior do Rio de Janeiro, indica que a doença segue uma tendência de "descida" do norte ao sul. A análise da série histórica dos casos no país, revela que a febre amarela ocorre em ciclos e, portanto, havia um "encontro marcado" com a doença, disse a bióloga Márcia Chame, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) durante palestra realizada no Museu do Amanhã no dia 21 de março, junto com o historiador Jaime Benchimol, também da Fiocruz.

Márcia disse que a maioria dos casos tem ocorrido em áreas de região de mata fragmentada. "Alterações no habitat aumentam o risco de febre amarela", afirmou, explicando que, com a degradação de áreas de floresta, o mosquito deixa de encontrar os macacos, que são os hospedeiros preferenciais temporários, e acaba atacando o homem. Além disso, desequilíbrios do ecossistema causam a convivência de diferentes espécies de macaco, que possuem níveis de suscetibilidade distintos ao vírus da doença: "Bugios ou guaribas são mais suscetíveis, enquanto o macaco-prego é mais resistente e o sagui aparece em um nível intermediário, ou seja, a maior diversidade no ambiente dilui o impacto da circulação do vírus".

Quando se observa o perfil dos casos de febre amarela notificados em humanos desde dezembro de 2016 até março de 2017, nota-se que os mais atingidos têm entre 36 e 50 anos de idade[1]. Essa faixa etária, segundo a historiadora, demonstra que muitos casos estão relacionados à prática de caça.

No próximo sábado (25), haverá uma mobilização no município do Rio de Janeiro, com unidades de saúde dedicadas exclusivamente à vacinação. A Secretaria Municipal de Saúde iniciará a campanha de vacinação oficialmente no dia 27. O planejamento de vacinação no estado começou priorizando as cidades que faziam fronteira com Minas Gerais e Espírito Santo e, agora, vai expandir a cobertura.

No Brasil, o Programa Nacional de Imunizações recomenda administrar a primeira dose da vacina em pessoas a partir de cinco anos de idade nunca vacinadas anteriormente e que seja feita uma dose de reforço, 10 anos depois[2]. Pessoas acima de 60 anos de idade, gestantes e imunocomprometidos deverão passar antes por avaliação médica.

Características da doença

Atualmente existem dois genótipos do vírus de febre amarela na América: um que ocorre no Brasil, Colômbia, Guiana, Guiana Francesa, Suriname, Venezuela e Equador e outro que atinge Peru e Bolívia. Trata-se de um RNA vírus, com alta capacidade de adaptação.

Entre os sintomas clínicos, estão doença febril aguda, de curta duração (até 12 dias) e viremia de dois a quatro dias. Podem ocorrer casos assintomáticos até quadros graves com insuficiência hepatorrenal e morte. Há imunidade natural permanente, não há um tratamento específico e é imunoprevinível[3].

Leia também: O que sabemos sobre o surto de febre amarela no Brasil

Deve suspeitar-se de febre amarela quando o paciente apresenta até sete dias de quadro febril agudo, acompanhado de dois ou mais dos seguintes sinais e sintomas: cefaleia, localizada principalmente supra-orbital, mialgia, lombalgia, mal estar, calafrios, náuseas, icterícia e/ou manifestações hemorrágicas.

Histórico da doença

Segundo Jaime Benchimol, a febre amarela é de origem africana e possui uma história de grandes epidemias no mundo. Na América, tornou-se um problema em meados do século 19, atingindo principalmente Havana, em Cuba, e o Rio de Janeiro. No caso do Brasil, o primeiro grande surto ocorreu no verão de 1849/1850. "Naquela época, a cidade do Rio de Janeiro tinha cerca de 260 mil habitantes e 90 mil adoeceram. Oficiosamente, estima-se que 15 mil morreram vitimados pela febre amarela", disse o historiador.

Na década de 1980, houve nova epidemia da doença no país, com casos em várias cidades interioranas. Outro surto registrado no Rio de Janeiro foi entre 1928 e 1929 e depois outra epidemia de febre amarela silvestre em 1937. Esta última, segundo Benchimol, foi muito similar à que esta ocorrendo no momento atual.

As primeiras ações voltadas para o controle da doença, quando ainda não se conhecia o vírus, os hospedeiros e vetor, focaram na transformação do ambiente, pois se acreditava que a transmissão era mediada por algum fator presente na atmosfera. "Foram demolidos morros, habitações coletivas, buscou-se afastar os cemitérios, por exemplo", disse Benchimol.

Com o avanço do conhecimento sobre a doença, as medidas de controle passaram a ser dirigidas para a vacinação e o controle do Aedes aegypti.

Desafios

Para Márcia, a carência de dados de boa qualidade é um fator que dificulta o enfrentamento da doença. Ela afirmou que uma ferramenta desenvolvida pela Fiocruz pode ajudar a melhorar o cenário. Trata-se do Sistema de Informação em Saúde Silvestre – SISS-Geo, um aplicativo gratuito criado pelo Centro de Informação em Saúde Silvestre (CISS) para monitorar registros de animais da fauna silvestre. Ao avistar um animal, o usuário manda informações de sua localização e estado de saúde geral. O objetivo é gerar modelos de alerta de ocorrências de agravos na fauna silvestre, principalmente com potencial acometimento humano, bem como modelos de previsão de oportunidades ecológicas para emergência de doenças.

Com relação às ações de atenção, Marcia apontou a dificuldade de formar profissionais capazes de orientar adequadamente a população. "Quando vamos orientar os agentes de saúde, que serão referência para uma área em termos de prevenção, encontramos muita dificuldade, pois o nível de instrução deles é ruim. Eles desconhecem patógenos, vírus, bactérias. Precisamos usar termos como micróbio, por exemplo. É, portanto, extremamente difícil formar esses profissionais para gerenciar doenças tão complexas", lamentou.

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