Brasil pede a OMS vacinas para conter surto de febre amarela silvestre

Ruth Helena Bellinghini

Notificação

17 de março de 2017

O Ministério da Saúde confirmou na noite desta sexta-feira (17) a aquisição de 3,5 milhões de doses de vacinas de febre amarela através do Grupo de Coordenação Internacional (GCI), formado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), Federação Internacional da Cruz Vermelha e Sociedades do Crescente Vermelho (IFRC), Médicos Sem Fronteiras (MSF) e Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), com secretariado da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS). Pela manhã, a OMS havia informado ao Medscape o pedido de acesso aos seis milhões de vacinas contra febre amarela que a instituição mantém para atender situações de emergência. O governo também anunciou a compra de outras 8,46 milhões de doses do laboratório Bio-Manguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

O governo federal tem afirmado reiteradas vezes dispor de vacinas suficientes para atender as populações em áreas de risco, mas há filas nos postos de saúde e o número de doses disponíveis nos postos de saúde é limitado. Além das áreas de Minas Gerais e Espírito Santo, que vêm registrando aumento de casos de febre amarela silvestre desde janeiro, o governo anunciou esta semana que pretende vacinar toda população do estado do Rio de Janeiro até o final do ano, depois da notícia da morte de um homem da cidade de Casimiro de Abreu e da confirmação de outro caso na mesma localidade.  Ambos os doentes contraíram febre amarela silvestre ao se embrenhar na mata a 12 km da cidade.

O Ministério da Saúde não revela qual o estoque disponível de vacinas no Brasil e os dados enviados por sua assessoria não são os mesmos anunciados por Bio-Manguinhos, que fabrica as vacinas contra febre amarela usadas no Brasil. "Atualmente, a quantidade de vacinas produzidas pela Fiocruz, por meio de Bio-Manguinhos, é de 4,5 milhões de doses por mês. Vale destacar que o laboratório tem capacidade de produzir nove milhões de doses mensais, quantitativo suficiente para a vacinação de rotina, atendimento à estratégia de contenção do surto da doença no país e ampliação do público-alvo a ser vacinado", afirmou o ministério ao Medscape em um email enviado à reportagem na quinta-feira (16) . Na nota desta sexta confirmando o pedido à entidades internacionais, os números do Ministério mudaram novamente: nele, a produção aparece como sendo de seis milhões de doses mensais, que passarão a nove milhões.

No entanto, em entrevista à revista Pesquisa Fapesp[1], o vice-diretor de produção de Bio-Manguinhos Antônio de Padua Barbosa disse que a produção foi triplicada nos primeiros meses de 2017 e que passou de dois a três milhões mensais de doses para entre sete e nove milhões. Bio-Manguinhos é um importante produtor mundial da vacina de febre amarela, um imunizante que leva quatro meses para ser produzido e que não interessa às grandes farmacêuticas por seu baixo custo: US$ 1 a unidade.

A produção normal da Bio-Manguinhos (de 2 a 3 milhões de doses segundo Barbosa ou 4,5 milhões, segundo o Ministério da Saúde), se destina à vacinação regular e rotineira em 19 estados brasileiros (AC, AM, AP, PA, RO, RR, TO, DF, GO, MS, MT, BA, MA, PI, MG, SP, PR, RS e SC) com recomendação para imunização, sendo que em seus deles (BA, PI, SP, PR, RS e SC) a vacinação não ocorre em todos os municípios. A população do Rio, Espírito Santo e o sul da Bahia está sendo vacinada de forma escalonada. Ainda segundo o Ministério da Saúde, desde o início do ano, "16,15 milhões de doses extras foram enviadas para cinco estados: Minas Gerais (7,5 milhões), Espírito Santo (3,45 milhões), São Paulo (3,25 milhões), Rio de Janeiro (1,05 milhão) e Bahia (900 mil). O quantitativo é um adicional às doses de rotina do Calendário Nacional de Vacinação, enviadas mensalmente aos estados. "

A despeito dos números oficiais, há relatos de dificuldades para se vacinar até para viajar para fora do país. A veterinária Juliana Assumpção tenta há dias se vacinar no posto do Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, porque tem viagem marcada com a família para os Estados Unidos com escala no Panamá. "Hoje, eu cheguei no posto às 6h30 para pegar senha, mas já tinha gente ali desde as cinco horas da manhã. São 100 senhas diárias e na fila tem de tudo, desde pessoas que vão viajar a pessoas que estão assustadas com o crescimento dos casos de febre amarela," descreveu ao Medscape. O posto alternativo mais próximo é o de Vargem Grande, onde não se faz a vacinação.

O plano do governo é vacinar 13 milhões de pessoas no estado do Rio até dezembro, com prioridade aos municípios próximos a Casimiro de Abreu e aos que fazem fronteira com Minas Gerais. Para especialistas, não estão claras nem as prioridades nem a estratégia do governo brasileiro para combater o atual surto da doença: entre dezembro do ano passado e fevereiro deste ano, o País registrou 326 casos confirmados e 109 mortes por febre amarela, sendo 92 em Minas, 14 no Espírito Santo e três em São Paulo. Além destes, 916 casos e 105 mortes suspeitas estão sendo investigados. Cerca de 80% dos casos estão concentrados em Minas.

 São crônicas de mortes anunciadas. Dr. Mauricio Lacerda Nogueira, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia

"São crônicas de mortes anunciadas. Estamos em março vendo gente morrer de febre amarela, sendo que há 15 anos estamos vendo a expansão da doença por novas áreas do país e há oito anos o governo federal incluiu a margem direita do rio São Francisco como área de vacinação obrigatória. Alguém cometeu um erro. As crianças foram vacinadas, mas a população adulta não recebeu a cobertura adequada, tanto que vemos adultos acometidos pela doença, mas raramente vemos crianças", afirmou ao Medscape o Dr. Mauricio Lacerda Nogueira, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, especialista em febre amarela e professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto. O Dr. Nogueira foi o responsável pelo programa de vacinação que garantiu a imunização de 95% da população do município. "Tivemos duas mortes na cidade, ambas de pessoas que migraram para cá depois de adultas e não foram vacinadas," contou.

De acordo com ele, o Brasil precisa vacinar sua população o quanto antes. "É incrível, mas sequer sabemos quantas vacinas temos em estoque no País, porque aparentemente o governo classifica essa informação como 'questão de segurança nacional'. Por mim, vacinava-se todo mundo, porque, em saúde pública, é sempre melhor pecar pelo excesso. Mas precisamos saber quantas vacinas temos, porque, se não são suficientes para todos, deveríamos estabelecer prioridades. No caso da febre amarela silvestre, as prioridades são determinadas pelo risco – ou seja áreas onde temos mortes de macacos por febre amarela – e pelo bioma, e não apenas pela densidade populacional", explica. Segundo o médico, outro motivo de preocupação é que as sociedades científicas não estão sendo ouvidas pelo governo na elaboração de uma estratégia para conter o surto e prevenção da doença.

Os especialistas vêm acompanhando a expansão da febre amarela silvestre há anos. Há cerca de 15 anos, o vírus deixou as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste para avançar até a margem esquerda do São Francisco (região que inclui Alagoas, Pernambuco e oeste da Bahia e Minas), Brasília e noroeste do Estado de São Paulo. O monitoramento é sempre feito pelo acompanhamento dos casos de epizootias, ou seja, a morte de macacos infectados, que funcionam como sentinelas para a chegada do vírus numa nova região. Em 2008, o vírus chegou ao Rio Grande do Sul e o governo recomendou a vacinação das populações da margem direita do São Francisco (leste e sul da Bahia e leste de Minas Gerais). "Quando se observa a expansão do surto atual, percebe-se claramente que por essa região que se espalhou, sinal de que houve falha na vacinação não apenas agora, mas oito anos atrás", observou.

Oito anos é um "número mágico" quando se fala em febre amarela, porque ele corresponde ao ciclo em que populações de macacos se infectam são quase dizimadas e se recompõem. A coincidência entre a tragédia ambiental de Mariana (MG) e a explosão dos casos de febre amarela fez muita gente associar os dois episódios, mas o Dr. Nogueira alerta para o fato de o mosquito transmissor da doença silvestre ter como habitat troncos ocos de árvores e nesse sentido, a população deveria ter diminuído. "O que acontece é outra coisa. Quando se acompanha a expansão da doença na região de São José do Rio Preto, você percebe claramente que ela coincide com o reflorestamento das margens dos rios, que se transformam em corredores entre fragmentos de florestas por onde os macacos viajam. Ou seja, esses projetos deveriam ser sempre acompanhados de uma estratégia de imunização das populações ribeirinhas e das cidades próximas", defendeu.

A cidade do Rio de Janeiro é a grande preocupação dos pesquisadores, principalmente porque ali está a Tijuca, maior floresta urbana do planeta e habitat de macacos. "Temos laudos conflitantes sobre a causa da morte de dois macacos, mas veja, um foi encontrado no Jardim Botânico e outro em Copacabana," alertou o epidemiologista Dr. André Ricardo Ribas Freitas, da Sociedade Brasileira de Dengue e Arboviroses. De acordo com ele, a confirmação dos casos em seres humanos é simples e pode se valer de três técnicas: reação em cadeia de polimerase (PCR), IgM ou teste imunohistoquímico. "As mesmas técnicas são usadas para detectar a doença nos macacos. O problema é que nos casos de epizootias a qualidade do material de coleta é comprometida porque os corpos muitas vezes já estão em decomposição quando são encontrados," explicou ao Medscape.

O Dr. Freitas apontou alguns problemas nas ações governamentais para conter a expansão da febre amarela. De acordo com ele, já bastante tempo a OMS recomenda a vacinação no sul da Bahia, nas áreas de Itacaré, Ilhéus, Itabuna, Porto Seguro, Trancoso e Arraial da Ajuda, todas muito frequentadas por turistas. "São áreas com epizootias, próximas a Minas, onde a vacinação já deveria ser obrigatória, mas só começou agora", observa. Outro local que preocupa o pesquisador é Alagoinhas, também na Bahia, onde foi encontrado um macaco morto por febre amarela. "A cidade é próxima de Feira de Santana e de Salvador, o que já seria um bom motivo para vacinar a população da área."

De acordo com ele, o brasileiro se preocupa muito em se vacinar quando viaja para fora do país, mas nem se lembra de fazer o mesmo quando vai a Brasília, passa o Carnaval nas praias da Bahia ou resolve pôr a mochila nas costas e fazer trilha em Minas Gerais. "Isso é uma das coisas que precisam mudar," alerta.

Ambos os especialistas destacam a necessidade de se rediscutir as estratégias de prevenção à febre amarela no Brasil. O Dr. Freitas lembra que a cidade de São Roque, no interior paulista, recebeu vacinas do governo estadual quando se detectou a morte de um macaco por febre amarela em fevereiro. "Seria importante que cidades próximas de São Roque, como Votorantim e Sorocaba, que têm regiões de mata, também recebessem melhor cobertura vacinal e que, futuramente, pensássemos melhor em regiões como o litoral paulista, próximo à Serra do Mar, as cidades próximas à Serra da Mantiqueira," recomendou. De acordo com ele, ao contrário do Rio, a capital paulista não reúne condições ambientais favoráveis à disseminação da doença. "O Rio é outra história, " diz o Dr. Nogueira. "Os cariocas já passaram pelas pancadas da Olimpíada, do Cabral, da Petrobrás. Acho que não aguentariam um pancada como um surto de febre amarela silvestre."

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....