Vacinação para a prevenção do câncer: HPV e hepatite B

Teresa Santos

Notificação

15 de dezembro de 2016

O papilomavírus humano (HPV) pode causar câncer em várias regiões do corpo tanto do homem quanto da mulher, e quase 100% dos casos de câncer de colo do útero são causados por esse vírus[1]. Além disso, ele causa verrugas genitais e responde por cerca de 91% dos casos de câncer anal, 75% dos casos de câncer de vagina, 72% dos casos de câncer de orofaringe, 69% dos casos de câncer de vulva e 63% dos casos de câncer de pênis[2]. De acordo com os Centers for Disease Control and Prevention (CDC), a maioria dessas neoplasias poderia ser evitada por meio da vacinação[2].

Apesar de as vacinas contra o HPV não serem novas, até hoje ainda geram dúvidas, de acordo com a pediatra Flavia Bravo, presidente da regional RJ da Sociedade Brasileira de Imunização (SBIm) e membro da Comissão Técnica para Revisão dos Calendários Vacinais e Consensos da SBIm, que fez uma apresentação sobre o tema durante o XV Congresso Brasileiro de Oncologia Pediátrica, promovido em novembro pela Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica.

Atualmente, sabe-se que elas são imunogênicas, segundo a Dra. Flávia, "muito eficazes tanto no mundo real quanto nos ensaios clínicos, produzem imunidade de rebanho, são eficazes em homens e em outros sítios além do colo uterino, produzem alguma proteção cruzada contra infecção por HPV não contido nas vacinas e, apesar de não serem terapêuticas, podem reduzir o risco de recorrência/doença em indivíduos vacinados com doença prévia, além de serem muito seguras".

A especialista citou um estudo publicado no British Medical Journal em 2012 (FUTURE I e II) [3] com mulheres que já haviam sido submetidas a tratamento cirúrgico para doença relacionada ao HPV. As mais de 17 mil mulheres amostradas, entre 15 e 26 anos de idade, foram divididas de forma aleatória em um grupo que recebeu três doses de vacina contra HPV quadrivalente (contra os tipos 6, 11, 16 e 18) e outro que recebeu placebo. A análise mostrou uma redução de 64,9% no risco de doença subsequente de alto grau em colo de útero, vulva e vagina.

Outro trabalho citado pela Dra. Flavia foi um estudo com 4065 homens saudáveis entre 16 e 26 anos de idade, de 18 países. A pesquisa duplo-cega, placebo-controlada e randomizada revelou que a vacina quadrivalente para HPV preveniu a infecção por HPV-6, 11, 16 e 18, bem como o desenvolvimento de lesões genitais externas nessa população. Os dados foram publicados 2011 no The New England Journal of Medicine[4].

A médica lembrou que a melhor idade para vacinar é ainda durante a infância, antes de um possível contato do indivíduo com o vírus. Os calendários da SBIm, da Sociedade Brasileira de Pediatria e do Ministério da Saúde recomendam a imunização a partir dos nove anos de idade. As recomendações para imunocompetentes menores de 15 anos são, segundo a médica, duas doses com intervalo mínimo de seis meses. Ela acrescentou que "não existem dados sobre imunogenicidade em imunocomprometidos e pessoas com HIV com esquema de duas doses: recomenda-se esquema tradicional de três doses, independente de faixa etária". Atualmente, a vacina para HPV não está disponível nos CRIEs (Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais).

Hepatite B

Segundo dados do Inca, estima-se que, em países em desenvolvimento, o vírus da hepatite B (HBV) seja responsável por 58,8% dos casos de câncer das células do fígado[5]. O HBV é capaz de sobreviver até uma semana fora do corpo humano e apenas uma partícula viral já é capaz de infectar o ser humano.

"A hepatite B é 100 vezes mais infecciosa do que o HIV", destacou a Dra. Flavia, lembrando que a transmissão pode ocorrer a partir do sangue e secreções por via perinatal, sexual, seringas e agulhas contaminadas, transfusão de sangue e acidentes com sangue contaminado.

Com relação à evolução da hepatite B, informou a médica, o risco de infecção crônica após infecção aguda é inversamente proporcional à idade. Ou seja, a hepatite B crônica ocorre em 90% dos infectados no primeiro ano de vida, em 30% dos infectados entre um e quatro anos e em aproximadamente 5% dos infectados na idade adulta[6,7].

Durante a hepatite B crônica, existem três fases: a fase de imunotolerância, a fase imunoativa (ou hepatite crônica) e a fase de portador inativo ou assintomático. Segundo a Dra. Flavia, "de 10% a 20% dos portadores inativos apresentam fenômenos de reversão: reaparecimento do HBeAg acompanhado de elevação da ALT pela reativação inflamatória do fígado".

A reativação da hepatite B pode se dar espontaneamente, porém há situações que favorecem esse processo. É o caso, por exemplo, de "pacientes oncológicos, preferencialmente quando em quimioterapia com corticosteroides e/ou rituximab; em pacientes reumatológicos em uso de bloqueadores de TNF, em doença inflamatória do intestino (infliximab) e na artrite reumatoide; na infecção pelo HIV; em transplante de órgãos sólidos (rins, coração, pulmão) e em transplante de medula óssea[8]".

Como estratégias para a prevenção de reativação do HBV a Dra. Flavia citou: fazer sorologia de pacientes que vão receber prednisona, azatioprina, metotrexate, micofenolato, bloqueadores de TNF e outros imunobiológicos. Aqueles que são suscetíveis devem preferencialmente ser vacinados antes da quimioterapia e recomenda-se a profilaxia antiviral em todos que os pacientes HBsAg+ que vão receber terapia imunomodulatória.

"No caso dos imunocomprometidos, a recomendação é quatro doses (0-1-2-7m) e doses dobradas para melhorar a resposta. Além disso, para manter a proteção em longo prazo, fazer sorologia anual e dose de reforço", orientou a Dra. Flavia.

Tanto a vacina para hepatite B quanto para hepatite A estão disponíveis nos CRIEs.

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