Doenças crônicas pós-câncer infantil representam desafio para médicos de atenção primária

Teresa Santos

Notificação

13 de dezembro de 2016

A taxa de sobrevivência do câncer infantil já chega a 80% em países de alta renda[1], o que significa que um em cada 1000 adultos nestes locais é considerado sobrevivente de câncer na infância ou na adolescência. Isso reforça a importância do não especialista no acompanhamento dos indivíduos tratados por câncer na infância. 

Um dos motivos para um seguimento cuidadoso, segundo a onco-hematologista Dra. Isis Magalhães, do Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB), é o fato de que pacientes que sobrevivem ao câncer pediártico, mesmo quando chegam à vida adulta, ainda apresentam maior mortalidade do que os que não tiveram história de neoplasia[2]. A especialista liderou uma sessão sobre perfis epidemiológicos em sobreviventes de câncer infantil no XV Congresso Brasileiro de Oncologia Pediátrica, realizado em novembro, no Rio de Janeiro.

Quando se trata do aspecto psicossocial, é possível o surgimento de vários efeitos tardios nos sobreviventes do câncer infantil. De acordo com a médica, eles podem apresentar depressão, ansiedade relacionada ao câncer, transtorno de estresse pós-traumático e resiliência. No campo educacional, podem ter prejuízos no desempenho acadêmico, limitações vocacionais, além de ficarem sujeitos a enfrentar desemprego e subempregos, discriminação por parte dos seguros de saúde e dificuldades de acesso a cuidados de saúde. Quanto às competências sociais, podem ter problemas nas relações familiares e com parceiros, sofrer com isolamento social e dificuldades para se tornarem independentes. Além disso, é importante atentar para comportamentos de risco, como tabagismo, uso de álcool e drogas e baixa aderência a cuidados médicos.

No entanto, os efeitos tardios podem se manifestar também no organismo, com sinais e sintomas como problemas no crescimento e no desenvolvimento, problemas de fertilidade e reprodução, dificuldades nas funções orgânicas e ainda o surgimento de uma segunda neoplasia.

Quanto ao risco aumentado de um segundo câncer na vida adulta, um estudo publicado em 2010 do Journal of the National Cancer Institute[3] feito com mais de 14 mil sobreviventes do câncer infantil (Childhood Cancer Survivor Study - CCSS) mostrou que a incidência cumulativa aos 30 anos foi de 20,5% para todas as neoplasias subsequentes e 7,9% para segunda neoplasia maligna. Os pacientes que sobreviveram na infância ao linfoma de Hodgkin foram os que apresentaram maior risco de apresentar neoplasias subsequentes. 

As doenças crônicas são outro problema importante. Segundo estudo do The New England Journal of Medicine, sobreviventes do câncer infantil têm elevada taxa dessas condições. Na pesquisa com mais de 10 mil sobreviventes e seus irmãos, 62,3% dos sobreviventes apresentaram pelo menos uma condição crônica, sendo que 27,5% tiveram uma condição grave ou que colocava em risco a vida. O risco relativo de ter uma condição crônica foi de 3,3 em sobreviventes quando comparados aos seus irmãos. Esses dados foram determinados quando os sobreviventes tinham, em média, 26,6 anos. [4]

A Dra. Isis lembrou ainda outro problema frequente: os distúrbios endócrinos, presentes em 20 a 50% dos sobreviventes de câncer infantil[5]. Ela citou ainda os possíveis efeitos tardios no sistema esquelético[6], as complicações cerebrovasculares e AVE[7], bem como doença cardiovascular[8]. Neste último, um estudo de 2012 do periódico Journal of Clinical Oncology mostrou que mesmo os sobreviventes de câncer infantil que não receberam tratamentos cardiotóxicos apresentam anomalias cardiovasculares, inflamação sistêmica e risco aumentado de doença aterosclerótica[9].

"Estamos lidando com uma nova doença crônica e o sistema de saúde não está preparado para essa mudança do perfil epidemiológico. Esse problema não se resolve com atendimento médico e consulta de 15 minutos", afirmou a palestrante, lembrando que é necessário um seguimento em longo prazo do paciente sobrevivente.

Segundo a especialista, mesmo nos países desenvolvidos os médicos da atenção primária não se sentem preparados para enfrentar essa questão. Um estudo feito nos Estados Unidos mostrou que a minoria desses profissionais considera seu treinamento médico adequado para reconhecer efeitos tardios da quimioterapia, da cirurgia oncológica e da radioterapia. Além disso, 93% disseram nunca ter usado as diretrizes do Children's Oncology Group, embora 86% tenham informado que seguiriam essas recomendações[10].

Algumas iniciativas têm buscado melhorar esse cenário. A Dra. Isis destacou a criação do International Late Effects of Childhood Cancer Guideline Harmonization Group em 2010[11]. O projeto busca unir esforços para criar uma estratégia integrada para vigilância de efeitos tardios em sobreviventes de câncer infantil.

No Brasil, uma das primeiras iniciativas nesse campo foi o grupo GEPPETTO (Grupo Especializado para Pacientes Pediátricos com Efeitos Tardios relacionados ao Tratamento Oncológico) [12] criado em 1999 pelo Departamento de Pediatria do Centro de Tratamento e Pesquisa do Hospital do Câncer em São Paulo.

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