Solidão ligada a doença de Alzheimer subclínica

Nancy A. Melville

Notificação

21 de novembro de 2016

Adultos mais velhos e com função cognitiva preservada, apresentando níveis elevados de proteína amiloide cortical, têm muito mais propensão a se queixarem de solidão e sentimentos de isolamento social, independentemente de suas circunstâncias sociais, fato que destaca o possível papel da solidão na doença de Alzheimer subclínica.

"Apresentamos uma nova associação entre a solidão e o volume do depósito amiloide cortical entre idosos cognitivamente hígidos, e a queixa de solidão como sintoma neuropsiquiátrico relevante ao diagnóstico de doença de Alzheimer subclínica", escrevem os autores, liderados pela Dra. Nancy J. Donovan, psiquiatra do Center for Alzheimer Research and Treatment no Brigham and Women's Hospital, em Boston, Massachusetts.

"Os pacientes com depósitos amiloides tiveram uma probabilidade 7,5 vezes maior do que as pessoas sem estes depósitos amiloides de concordar com qualquer item referente à solidão, às vezes ou com frequência".

Esses achados foram publicados on-line em 2 de novembro no periódico JAMA Psychiatry.

Relação causal?

O estudo foi realizado com 79 adultos com função cognitiva preservada, moradores da comunidade recrutados no Harvard Aging Brain Study. A média de idade dos participantes foi de 76,4 anos.

No total, 22 (28%) tiveram resultado positivo no teste de apolipoproteína E ε4 (APOEε4), que é o fator de risco genético da doença de Alzheimer; 25 (32%) apresentaram placas amiloides corticais por tomografia de emissão de pósitrons com composto-B de Pittsburgh (PiB-PET).

A solidão foi informada pelos próprios pacientes e estes relatos foram avaliados por meio da UCLA Loneliness Scale com três itens, que indaga: "Com que frequência você sente falta de companheirismo?", "Com que frequência você se sente deixado de lado?" e "Quantas vezes você se sente isolado dos outros?"

As respostas foram avaliadas por uma escala de quatro pontos, com 1 indicando nunca; 2, raramente; 3, às vezes; ou 4, com frequência. O total da pontuação pode variar de 3 a 12, com a pontuação maior indicando mais solidão.

A média da pontuação na escala de solidão entre os participantes foi de 5,3.

Após o ajuste para variáveis ​​como idade, sexo, status de APOE4, status socioeconômico,  depressão, ansiedade e redes sociais, os participantes com maior volume de placas amiloides tinham probabilidade 7,5 vezes maior de serem classificados como solitários quando comparados àqueles sem esses depósitos amiloides [odds ratio, 7,5; intervalo de confiança de 95%, de 1,7% a 34,0%; P = 0,01].

A relação entre o maior volume de placas amiloides e a solidão também foi significativamente maior entre os portadores da APOE4 em comparação aos não portadores. Além disso, esta relação aumentou com o aumento do volume dos depósitos amiloides - para cada razão de 0,1 do volume de distribuição das placas amiloides na tomografia de emissão de pósitrons com composto-B de Pittsburgh, a média da pontuação na escala de solidão da UCLA aumentou 0,5 unidades nos portadores da APOE44 em comparação aos não-portadores, observam os autores.

Os resultados são coerentes com as hipóteses relativas aos efeitos da autopercepção na doença de Alzheimer subclínica, disse a Dra. Donovan ao Medscape .

"Estamos interessados ​​na possibilidade de que as alterações cerebrais precoces decorrentes da doença de Alzheimer possam estar associadas a mudanças sutis da percepção social ou da gratificação social que poderiam predispor ao sentimento de solidão."

"Alternativamente, as interações sociais podem ser cognitivamente exigentes para as pessoas que podem estar experimentando discretas alterações cognitivas subjetivas pela doença de Alzheimer precoce, e isto pode levá-las a restringirem a própria atividade social e se sentirem solitárias", acrescentou.

Pesquisas anteriores relacionaram experiências sociais, inclusive a solidão, com vários desfechos adversos, como depressão, declínio cognitivo e morte precoce entre os idosos. À luz desta pesquisa, os autores supõem que a experiência de solidão possa desempenhar um papel de agente causal na doença de Alzheimer.

"Também é possível que a experiência subjetiva da solidão ou de desprendimento possa promover o acúmulo de placas amiloides, ou possam existir efeitos dinâmicos e recíprocos ao longo do tempo", observam os autores.

Os pesquisadores planejam realizar outros estudos longitudinais para avaliar se a APOE4 influencia as associações unidirecionais e/ou bidirecionais entre o volume das placas amiloides e a solidão ao longo do tempo.

Novos achados

Estes achados sugerem um papel importante da solidão como sintoma de comprometimento comportamental leve, o que tem ganhado atenção como importante conceito a considerar, juntamente com o comprometimento cognitivo leve, escreve o Dr. Paul B. Rosenberg em um comentário  publicado junto com o estudo.

"Estas descobertas são recentes, e o constructo da solidão merece um olhar mais próximo", escreve o Dr. Rosenberg.

Esse estudo é particularmente importante no que diz respeito à investigação sobre a primeira fase da doença de Alzheimer, disse o Dr. Rosenberg ao Medscape.

"Quando alguém entra no consultório com o seu primeiro problema funcional, a pessoa já tem a doença há 20 anos, de modo que existe claramente um grande lapso de tempo antes disso para intervir", explicou.

"Estamos nos direcionando no sentido de avaliar as pessoas com sintomas leves, mas mesmo estas pessoas podem já estar longe demais para receber ajuda, então estamos tentando chegar às pessoas com seus primeiros sintomas, quando ainda são sutis e, portanto, subclínicos".

Embora as alterações do humor tenham sido um dos sintomas comportamentais precoces mais proeminentes relacionados com a doença de Alzheimer subclínica, a solidão parece ser outro candidato apropriado, disse ele.

"A solidão é fascinante como possível sintoma, por várias razões - por um lado, nunca esteve na nossa lista antes, e o fato de neste estudo não estar na verdade relacionada com a rede social dos sujeitos é muito interessante ".

Até sabermos mais, estes achados sugerem que, no mínimo, os médicos não devem desvalorizar as queixas de solidão, particularmente diante de outros sintomas, como as alterações do humor.

"Agora, quando as pessoas mais velhas disserem que se sentem solitárias, podemos supor que é porque elas estão socialmente isoladas, como muitas pessoas mais velhas, mas este estudo sugere que devemos ouvir isso de outro modo. Quando o paciente se queixa de solidão, pode haver mais coisas acontecendo do que se supõe ", disse o Dr. Rosenberg.

Este estudo foi financiado pelo National Institute of Aging; Harvard Medical School Department of Psychiatry Dupont-Warren Fellowship and Livingston Award; Harvard Aging Brain Study; e pelo Muriel Silberstein Alzheimer's Disease Research Fund. Os autores e o Dr. Rosenberg informaram não possuir conflitos de interesses relevantes ao tema.

JAMA Psychiatry. Publicado on-line em 2 de novembro de 2016. Texto completo, Comentário

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