Dra. Sima Ferman fala sobre os destaques da programação do 15º Congresso Brasileiro de Oncologia Pediátrica

Teresa Santos e Dra. Ilana Polistchuck

Notificação

14 de novembro de 2016

Estimativas do INCA[1] apontam que nos anos de 2016 e 2017 são esperados 12.600 novos casos de câncer em crianças e adolescentes (de um a 19 anos) no Brasil. Tendo como tema central o controle do câncer pediátrico, o 15º Congresso Brasileiro de Oncologia Pediátrica começa no dia 15, no Rio de Janeiro. O evento, que ocorre a cada dois anos, é organizado pela Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (SOBOPE) e a edição de 2016 será presidida pela Dra. Sima Ferman, 2ª vice-presidente da SOBOPE. A médica, que chefia o Serviço de Oncologia Pediátrica do Instituto Nacional do Câncer (INCA), falou ao Medscape sobre o congresso, que reunirá especialistas para discutir estratégias de intervenção que levem à redução do impacto dessa doença e ao aumento dos índices de cura, bem como à melhora da qualidade de vida dos sobreviventes. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Medscape – Quais são suas expectativas para o XV Congresso Brasileiro de Oncologia Pediátrica?

Dra. Sima Ferman – Este é o maior evento da especialidade no Brasil e congrega não só pediatras, mas também cirurgiões e profissionais da equipe multiprofissional como nutricionistas, enfermeiros e psicólogos, entre outros. Esperamos cerca de 1500 participantes. Teremos 30 palestrantes internacionais e renomados palestrantes nacionais, o que permitirá ampla troca de informações e contatos. O aumento do conhecimento implicará em melhores resultados do tratamento das crianças. Teremos também a honra de sediar o ASPHO Essentials, que é trazido pela primeira vez ao Brasil. Serão abordados temas de hematologia benigna, além de onco-hematologia. Trata-se de uma oportunidade única para os profissionais do Brasil e da América Latina. Os melhores temas abordados nos anos 2015 e 2016 nos eventos realizados pela ASPHO nos Estados Unidos serão trazidos para serem discutidos no nosso país por prestigiados pesquisadores. Teremos também a honra de sediar o Encontro anual do Grupo Latino Americano em Oncologia Pediátrica (GALOP).

Medscape – Quais são os temas mais aguardados? Quais assuntos a serem abordados a senhora considera mais importantes?

Dra. Sima Ferman
Imagem: Divulgação

Dra. Sima Ferman – Serão cinco dias de programação intensa. O tema do nosso evento é "Controle do Câncer Pediátrico". Haverá o Simpósio INCA de controle do câncer, em que serão discutidas as ações de vigilância no Brasil e no mundo (Registro Hospitalar de Câncer –RHC– e Registro de Câncer de Base Populacional – RCBP), incidência, mortalidade, morbidade por câncer. Abordaremos de que forma estas informações podem ser utilizadas para nortear as políticas públicas de saúde no controle do câncer na infância, na adolescência e no adulto jovem. Também serão demonstrados modelos de sucesso de estratégias de controle do câncer pediátrico como, por exemplo, o do Chile.

Entre os destaques da programação, podemos citar também alguns módulos com interesse para diferentes profissionais: capacitação dos profissionais da atenção primária e secundária; um módulo dedicado aos oftalmologistas visando a detecção precoce e a atualização em retinoblastoma e manifestações oculares em câncer pediátrico (o retinoblastoma é o tumor mais frequente da retina em crianças e é o tumor pediátrico mais beneficiado com o diagnóstico precoce, implicando no aumento das chances de cura e de preservação da visão). Teremos também um curso de imunizações (impacto das infecções imunopreveníveis e protocolos de prevenção para o paciente com câncer), simpósio de neuro-oncologia (manejo de tumores cerebrais), um workshop de cuidados paliativos ministrado pelo Dr. Adam Rapoport, do The Hospital for Sick Children & Emily's House Children's Hospice (Canadá), além de plenárias conjuntas para todos os profissionais abordando temas como: morbidade hospitalar e mortalidade por câncer em crianças, adolescentes e adultos jovens no Brasil, como melhorar os resultados do tratamento de tumores do sistema nervoso central em países de baixa e média renda, e aspectos bioéticos dos estudos genômicos, entre outros.

Medscape – O congresso deste ano apresentará ou discutirá alguma nova terapia ou diretriz?

Dra. Sima Ferman – Este ano programamos também um fórum "Como cuidar da sua saúde", estimulando um diálogo com a sociedade e apontando para hábitos de vida saudáveis desde a infância na prevenção do câncer no adulto. Além disso, durante o Simpósio INCA de controle do câncer será lançada a publicação da entidade, feita em parceria com a SOBOPE: "Câncer em crianças, adolescentes e adultos jovens: informações de incidência, mortalidade e morbidade hospitalar no Brasil". A primeira publicação em crianças e adolescentes foi lançada em 2008 e as informações para adultos jovens e morbidade hospitalar são inéditas no país.

Medscape – Um dos objetivos do congresso é estimular a integração de profissionais de saúde. Como essa integração pode contribuir para melhorar os índices de cura e a qualidade de vida dos sobreviventes do câncer infantil?

Dra. Sima Ferman – Para a obtenção dos maiores índices de cura é necessário que o tratamento seja realizado em centros especializados, com equipes especializadas na atenção às crianças com câncer. O tratamento do câncer em crianças tem particularidades que o diferenciam da doença no adulto e, dentre elas, está a necessidade de maior integração com pais e cuidadores. É importante o reconhecimento de que a doença afeta não só a criança, mas toda a família. Um profissional sozinho não dá conta de todas as necessidades para enfrentar a doença e o tratamento. Outra importante conscientização é que a criança não é um adulto pequeno, e que as necessidades dela variam com a idade e com o amadurecimento. A integração dos vários saberes é fundamental para maximizar os resultados, sejam eles a cura propriamente dita, ou a qualidade de vida dos sobreviventes da doença.

Medscape – Por que ainda não observamos uma diminuição importante da mortalidade por câncer em pacientes pediátricos, tal como observado nos países de alta renda?

Dra. Sima Ferman – Nos últimos anos houve um progresso muito grande no tratamento do câncer infanto-juvenil, sendo que, em países desenvolvidos, a taxa de cura do câncer nessa faixa etária chega a 80%. No Brasil, ainda não conseguimos atingir estes níveis e ainda há muito a melhorar. Vivemos uma transição epidemiológica, em que a mortalidade por doenças infecciosas em crianças diminuiu, e o câncer representa a primeira causa de morte por doença de um a 19 anos. Entretanto, ainda não estamos totalmente estruturados para atender a esta demanda. Muitos pacientes chegam ao centro de tratamento com doença muito avançada, devido ao diagnóstico tardio. Para alertar sobre a ocorrência da doença, seus sintomas e formas de tratamento, o ensino da oncologia clínica e pediátrica deve ser iniciado na grade curricular dos cursos de ciências da saúde. A forma de apresentação das doenças é muito variada e qualquer profissional de saúde pode se deparar com um caso inicial de câncer. Há necessidade também de capacitação dos profissionais da atenção básica para reconhecerem os sinais e sintomas do câncer na criança e no adolescente e encaminhá-los para um centro especializado imediatamente.

É também importante o acesso a centros especializados no tratamento do câncer. A rede de atenção primária, secundária e terciária tem de funcionar interligada, com sistemas de referência e contrarreferência. É preciso também dar atenção às condições socioeconômicas (que têm impacto no estado nutricional), e questões como saneamento básico e transporte, entre outros, que são fundamentais para garantir a saúde da criança em geral, e também para garantir o acesso ao tratamento. O Brasil é um país de dimensões continentais, a maior parte dos centros de tratamento é localizada nas Regiões Sul e Sudeste. Seria interessante que as crianças fossem tratadas o mais próximo possível de suas residências. Entretanto, é também importante que sejam atendidas em centros de excelência, com um número considerável de pacientes novos/ano, o que possibilita experiência no manejo deste tipo de doença, que é muito complexo e específico. O controle de qualidade destes centros deve ser verificado anualmente.

O que vemos hoje em dia através dos pagamentos efetuados pelo SUS para tratamento quimioterápico é que vários centros não habilitados em oncologia pediátrica no Brasil recebem pelo atendimento. Isto significa que não são todas as crianças com câncer estão sendo atendidas nos melhores locais e com os profissionais mais habilitados. Para aumentar as chances de cura, o diagnóstico deve ser precoce e o tratamento realizado em centros especializados, com oncologistas pediátricos treinados e toda a equipe multiprofissional especializada na atenção à criança com câncer. O câncer infanto-juvenil deve estar como prioridade na agenda política de saúde do governo.

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