COMENTÁRIO

O açúcar é o novo tabaco, então vamos tratá-lo da mesma forma

Dr. Aseem Malhotra, MBChB, MRCP

Notificação

8 de novembro de 2016

Recentemente fui convidado para dar uma palestra no "Encontro de Cúpula sobre o Açúcar" no Parlamento do Reino Unido. Este evento foi convocado por Rend Platings, uma mãe que ficou tão chocada com a revelação da Chief Medical Officer da Inglaterra de que, como consequência da obesidade, a geração atual de pais pode ser a primeira a viver mais do que seus filhos, que lançou a campanha, "Açúcar: fique esperto" (Sugarwise), para ajudar os consumidores a identificar os alimentos que contêm adição de açúcar.[1]

Keith Vaz, diretor do grupo parlamentar de todos os partidos sobre o diabetes (All-Party Parliamentary Group for Diabetes), presidiu o evento, cujo público era formado por vários representantes do comércio de grande varejo do Reino Unido como Tesco, Caffè Nero e o grupo de Jamie Oliver, bem como terceiras partes interessadas, como o UK Department of Health, Public Health England, a British Soft Drinks Association e a Food and Drink Federation.[2]

Comecei por parabenizar o anúncio do governo do Reino Unido da inclusão de um imposto de 20% sobre bebidas adoçadas com açúcar a partir de 2017. Congratulei da mesma forma as recentes declarações da Organização Mundial de Saúde (OMS), sobre a tributação de bebidas açucaradas em pelo menos 20% para conter a epidemia mundial de obesidade e diabetes tipo 2. Não devemos esquecer que a queda substancial do consumo de tabaco nas últimas três décadas, que foi o fator isolado mais importante no sentido da diminuição da mortalidade cardiovascular durante esse período, só ocorreu depois de medidas legislativas direcionadas à acessibilidade, à disponibilidade e à aceitabilidade do tabagismo.[3]

Efeitos na saúde

Pesquisadores de Oxford estimaram que uma redução de 15% do consumo de açúcar por meio deste imposto evitaria que 180.000 pessoas no Reino Unido se tornassem obesas em um ano e um número ainda maior de pessoas alcançasse a faixa de sobrepeso.[4] Mas as evidências científicas revelam que os benefícios para a saúde de toda a população advindos deste imposto vão muito além da mera redução de calorias:

  • Uma análise econométrica de 175 países (considerado o tipo de estudo de maior qualidade após os ensaios clínicos randomizados controlados) revelou que, para cada 150 calorias adicionais do açúcar disponíveis para consumo, há um aumento de 11 vezes da prevalência de diabetes tipo 2 na população. Isso em comparação a 150 calorias de outra fonte, como gordura ou proteína e independentemente do índice de massa corporal (IMC) e dos níveis de atividade física.[5]

  • A prevalência do diabetes tipo 2 na população norte-americana entre 1988 e 2012 aumentou 25% tanto entre as pessoas obesas quanto entre as pessoas com o peso normal,[6] demonstrando que o diabetes tipo 2 não é uma doença relacionada exclusivamente à obesidade.

  • Um estudo de coorte prospectivo de alta qualidade revelou o triplo de mortalidade cardiovascular entre os adultos norte-americanos que consomem mais de 25% de calorias provenientes de açúcar adicionado em comparação àqueles que consomem menos de 10%, com resultados consistentes em relação aos níveis de atividade física e ao índice de massa corporal.[7]

  • Os efeitos positivos na saúde ao reduzir a ingestão de açúcar parecem ser bem rápidos. Em um estudo com 43 crianças latinas e afro-americanas com síndrome metabólica, a redução da média de 28% de calorias provenientes de açúcar adicionados para 10%, mantendo o total de calorias e as calorias provenientes de carboidratos inalterados, reduziu significativamente os níveis de triglicerídeos, LDL, pressão arterial e insulina de jejum em apenas 10 dias.[8]

Quanto açúcar é seguro ingerir?

Então, de quanto açúcar precisamos? Para a manutenção da saúde o consumo ideal é zero. O acréscimo de açúcar não corresponde a nenhuma necessidade biológica e, portanto, por definição não é um "nutriente". É o componente da frutose (a sacarose é formada por 50% de glicose e 50% de frutose) que preenche os quatro critérios que justificam a sua regulação: toxicidade, indisponibilidade, potencial de dependência e impacto negativo na sociedade.[9]

Quanto açúcar podemos ingerir com segurança? O consumo de pequenas quantidades de açúcar livre, que inclui todo o açúcar acrescentado e o açúcar presente nos sucos de frutas, nos xaropes e no mel, cotidianamente, tem um efeito deletério sobre a mais comum das doenças não transmissíveis em todo o mundo: a cárie. O tratamento da doença dental responde por 5% a 10% das despesas de saúde nos países industrializados, e no Reino Unido, a cárie dentária é a causa Número 1 de admissão hospitalar por dor crônica entre as crianças pequenas.[10,11]

Como indicado por pesquisadores da London School of Hygiene and Tropical Medicine, há uma grande discussão sobre se a Organização Mundial da Saúde deve recomendar o limite máximo de consumo de açúcar a não mais de 3% das calorias diárias (cerca de três colheres de chá).[12] O cidadão médio do Reino Unido e dos EUA, contudo, consome pelo menos de quatro a sete vezes essa quantidade.[13,14] Isto talvez não seja surpresa quando reconhecemos que é quase impossível para o consumidor evitar o açúcar, dada a grande prevalência dele no ambiente alimentar e pelo fato de grande parte estar oculta. Nos Estados Unidos, quase metade de todo consumo de açúcar vem de alimentos aos quais não se associa normalmente a presença de açúcar, como o ketchup, os molhos de salada e o pão. Um terço do consumo de açúcar vem de bebidas adocicadas e um sexto de alimentos que as pessoas normalmente percebem como supérfluos, como chocolates, biscoitos e sorvete.[14]

Nos Estados Unidos, não há nenhuma referência à ingestão de açúcar nos rótulos dos alimentos. Na Europa, há informações nos rótulos, mas sem fazer distinção entre crianças e adultos. Uma lata de coca-cola normal contém nove colheres de chá de açúcar adicionado, que é o triplo do limite superior de ingestão de açúcar para uma criança de oito anos de idade sugerido pelo Department of Agriculture em 2009. O rótulo da recomendação de quantidade diária no Reino Unido descreve estas nove colheres de chá de açúcar como 39% do consumo diário. Com base nesta falsa tranquilidade, é compreensível que os pais acreditem ser seguro para seus filhos tomar duas latas e meia por dia.[15]

A indústria de alimentos, muitas vezes, argumenta que o público deve ter "responsabilidade pessoal" ao escolher os alimentos, o que desvia o foco da responsabilidade dos fabricantes na epidemia de obesidade exclusivamente para o consumidor. A verdade é que o público não tem esse conhecimento por causa da confusão dos rótulos dos alimentos, e o público não tem escolha porque o açúcar é acrescentado em quase 80% dos alimentos processados.

A indústria do tabaco, a indústria do açúcar

O fato de terem transcorrido 50 anos antes das primeiras relações entre o tabagismo e câncer de pulmão serem publicadas no British Medical Journal e antes de uma regulamentação eficaz ser implementada é a prova cabal de como a indústria do tabaco conseguiu defender os próprios interesses. A tônica da estratégia foi a negação, semear dúvidas e confundir o público, comprando a lealdade de alguns cientistas, provendo assim munição aos seus aliados políticos.[16]

As semelhanças entre a indústria do tabaco e a indústria de açúcar são desconcertantes. Como um recente artigo no periódico JAMA Internal Medicine revelou, a indústria do açúcar pagou três influentes cientistas de Harvard para minimizar o papel do açúcar na doença cardíaca e jogar a culpa na gordura.[17] No ano passado, o New York Times denunciou que a empresa Coca-Cola pagou milhões de dólares para financiar pesquisas que subestimassem o papel dos refrigerantes na obesidade e jogassem a culpa na falta de exercícios como fator determinante.[18] E, de acordo com um antigo Ministro da Saúde do Reino Unido, a promoção incorreta de uma dieta com baixo teor de gordura, alta em carboidratos e com muito açúcar por "cientistas e políticos moralmente corruptos que se deixaram manipular pela indústria de alimentos" é a responsável pela epidemia mundial de obesidade.[19]

Os recentes clamores da Organização Mundial da Saúde para tributar as bebidas adocicadas soam como música para os ouvidos dos militantes pró-saúde. No entanto, as mensagens dos responsáveis pela saúde pública precisam ser mais claras. Não há nada de errado com uma guloseima ocasional, mas o açúcar não tem vez numa "dieta equilibrada saudável." Como ocorreu com o tabagismo, qualquer medida de regulamentação para reduzir o consumo de açúcar, como a proibição da publicidade de bebidas adocicadas e a dissociação destas bebidas dos eventos desportivos, terá grande repercussão em termos de melhora da saúde da população em um curto período de tempo. O embasamento científico é mais do que suficiente; as provas contra o açúcar são esmagadoras. O açúcar é o novo tabaco, então vamos começar a tratá-lo da mesma forma.

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