Desabastecimento de penicilina alerta para desafio global de combate à sífilis

Teresa Santos

Notificação

2 de setembro de 2016

Desde o início deste ano, diversos estados brasileiros vêm sofrendo com o desabastecimento da penicilina benzatina. Em janeiro,  um levantamento feito pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, apontou que 60,7% dos estados brasileiros relatavam desabastecimento de penicilina benzatina. Desde então, lotes do produto foram adquiridos em caráter emergencial pelo MS, mas os baixos estoques do medicamento, especialmente na rede pública, seguem gerando dificuldades às prescrições médicas, visto que a substância é essencial para o tratamento da sífilis, entre outras indicações como a profilaxia da febre reumática e a faringite bacteriana em crianças.

A penicilina é um medicamento que faz parte do Componente Básico da Assistência Farmacêutica e cabe aos estados e municípios a compra, a distribuição e a dispensação destes antibióticos, assim como o controle de estoques e prazos de validade dos produtos. De acordo com a assessoria de imprensa do MS, a compra realizada em fevereiro deste ano foi uma medida extraordinária em decorrência dos problemas de abastecimento que vinham sendo relatados pelos municípios e estados desde 2014. Ainda segundo o MS, os "eventuais atrasos na entrega de todos os tipos de penicilina e seus derivados devem-se à falta da matéria-prima, que é produzida apenas na China e na Índia".

O desabastecimento de penicilina não é uma exclusividade do Brasil. De acordo com o Dr. Celso Ramos, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), membro titular da Academia Nacional de Medicina e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), nações desenvolvidas como Estados Unidos e Canadá também enfrentam realidades semelhantes. A situação, alertou ele, exige atenção, "pois não parece representar um problema pontual ou temporário."

"Vários fatores estão por trás desse desabastecimento, mas uma das principais razões é o fato de a penicilina benzatina ser um produto barato e que provavelmente confere um lucro baixo aos fabricantes, visto que tem indicações relativamente restritas: o tratamento de sífilis, particularmente para gestante, e o tratamento de faringite", afirmou ele em entrevista ao Medscape.

A sífilis tem aumentado no Brasil nos últimos anos. Uma tendência que, aponta o Dr. Ramos, também tem sido identificada em países como Estados Unidos e Austrália. Dados do Boletim Epidemiológico de Sífilis de 2015 do Ministério da Saúde mostram que, em 2013, a taxa de sífilis em gestantes no país foi de 7,4 por mil nascidos vivos. Alguns estados registraram números ainda maiores: no Mato Grosso do Sul e no Rio de Janeiro foram 16,7 e 14,5 casos por mil nascidos vivos, respectivamente. Ainda, dados preliminares de 2014 apontam uma taxa de detecção de 9,7 em gestantes no país. Quanto à sífilis congênita, a doença alcançou uma taxa de 4,7 por mil nascidos vivos em 2013 e os dados preliminares de 2014 indicam detecção de 5,6 casos por mil nascidos vivos.

No final de 2015, uma Nota Informativa Conjunta do MS e da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCT/MS) orientava os profissionais da rede pública de saúde a priorizar o uso da penicilina benzatina para gestantes com sífilis e penicilina cristalina para crianças com sífilis congênita. Como alternativas ao tratamento da sífilis primária, secundária, latente recente e tardia, indicava doxiciclina (para não gestantes) e ceftriaxona (para gestantes e não gestantes).

Entretanto, o Dr. Ramos explica que, para sífilis em gestantes, não há melhor alternativa do que a penicilina. "A ceftriaxona pode ser utilizada, mas é mais cara e o uso é mais difícil, pois exige injeções intramusculares diárias. Com a penicilina benzatina eu trato sífilis com três séries de injeções com uma semana de intervalo entre elas. Se resolver fazer ceftriaxona,  será preciso 21 dias de injeções, um tratamento penoso e difícil. Além disso, não existe padrão técnico para tratamento de gestante com ceftriaxona. O padrão-ouro para gestante com sífilis é a penicilina benzatina", disse o especialista ao Medscape.

De fato, nas diretrizes de 2015 de tratamento da sífilis durante a gestação, os Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos informam: "penicilina G é o único antimicrobiano conhecido como sendo eficaz para a prevenção da transmissão materna para o feto e para o tratamento da infecção do feto". No mesmo texto, a instituição estabelece ainda que "os dados são insuficientes para recomendar a ceftriaxona para o tratamento da infecção materna e prevenção da sífilis congênita".[1]

Já a doxiciclina, de acordo com o Dr.Ramos, é administrada por via oral, durante três semanas, mas não pode ser usada em gestantes. Dessa forma, disse ele, mesmo quando a gestante tem alergia à penicilina, a penicilina benzatina é a opção indicada.

"Em caso de alergia, é indicado fazer dessensibilização e tomar as medidas necessárias para fazer uso de penicilina benzatina, pois qualquer outro tratamento em gestante com sífilis que não seja com essa substância terá resultado inferior", alertou.

A dificuldade de aquisição de penicilina Segundo Celso Ramos, tanto o CDC quanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) já se manifestaram nesse sentido. Mas, para o médico, é difícil achar uma solução, visto que o principal problema é

O desinteresse das empresas farmacêuticas na produção da penicilina benzatina e o número crescente de casos de sífilis têm gerado preocupação global e foi um dos temas discutidos na 69ª Assembleia Mundial da Saúde,  em maio deste ano, em Genebra, Suíça. No encontro, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recebeu notificações de desabastecimento em diversos países e está monitorando a disponibilidade global do medicamento para tentar equilibrar as necessidades de cada país e o fornecimento de penicilina benzatina nestas nações. No Brasil,  um possível incentivo governamental para produção local parece, na opinião do Dr. Ramos, algo difícil de acontecer.

"Nossa indústria farmacêutica não é fundamentada na síntese das substâncias, ela faz bem o produto final. Embora tenhamos uma grande quantidade de indústrias farmacêuticas, poucas realmente sintetizam a substância em si. Esse é um problema sério que, na verdade, pode afetar inclusive a produção de outras substâncias", alertou.

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