Estatinas são benéficas em muitos pacientes com doença renal crônica

Dra. Veronica Hackethal

Notificação

29 de agosto de 2016

As estatinas diminuem eventos cardiovasculares graves na doença renal crônica (DRC) leve a moderada. No entanto, esses benefícios diminuem com a redução da função renal e podem não se aplicar a pacientes em diálise, de acordo com uma meta-analise publicada online em 28 de julho em Lancet Diabetes & Endocrinology.

Os dados sugerem que as estatinas podem beneficiar uma "grande variedade" de pacientes com doença renal crônica. "Em pacientes com DRC, regimes com estatina devem ser escolhidos para maximizar a redução absoluta no colesterol lipoproteína de baixa densidade (LDL) para alcançar os maiores benefícios de tratamento", escrevem os autores, que fizeram parte do Cholesterol Treatment Trialists' (CTT) Collaboration. No entanto, os resultados não deixam de ter algumas ressalvas.

"Nossos resultados mostram que, mesmo após permitir reduções um pouco menores no colesterol LDL, à medida que a taxa de filtração glomerular (TFG) diminuiu, houve uma tendência de menores reduções do risco relativo para eventos coronarianos graves e acidentes vasculares encefálicos. Em particular, houve pouca evidência de que o tratamento com estatina tenha sido eficaz em pacientes que iniciaram o tratamento após iniciada a diálise", eles escrevem.

O estudo também destacou que quanto maior a redução do LDL, maior o benefício das estatinas. Alcançar maiores reduções do LDL, no entanto, geralmente significa doses mais altas de estatinas, o que pode aumentar o risco de miopatia em alguns pacientes com doença renal.

Os pesquisadores analisaram dados do banco de dados clínicos da CTT Collaboration, envolvendo 28 ensaios com 183,419 indivíduos, incluindo pacientes em diálise e com transplante renal. A análise incluiu o AURORA, um estudo-chave de pacientes em diálise. Uma vez que o estudo AURORA usou uma definição diferente para morte coronária em relação a outros estudos, os pesquisadores reclassificaram este desfecho para padronizar a avaliação. Eles também padronizaram os resultados para explicar as diferenças na redução do LDL entre os estudos.

De forma geral, os resultados mostraram que as estatinas reduziram o risco de ter um primeiro evento vascular grave em cerca de 21% por mmol/l de redução no colesterol LDL (rate ratio, 0,79; intervalo de confiança de 95%, 0,77 – 0,81; p < 0,0001). Os eventos coronarianos graves e acidente vascular encefálico reduziram com o uso de estatinas (rate ratio, 0,76, IC de 95%, 0,73 – 0,79, e 0,84, IC de 95%, 0,80 – 0,89, respectivamente).

Os benefícios das estatinas diminuíram juntamente com o declínio na TFG estimada (TFGe; p = 0,008 para a tendência), principalmente relacionada a eventos coronários graves (p = 0,01 para a tendência) e AVE (p = 0,07 para tendência):

  • TFGe ≥60 ml/minuto por 1,73 m2: RR, 0,78; IC de 99%, 0,75 – 0,82

  • TFGe 45 a <60 ml/minuto por 1,73 m2: RR, 0,76; IC de 99%, 0,70 – 0,81

  • TFGe 30 a <45 ml/minuto por 1,73 m2: RR, 0,85; IC de 99%, 0,75 – 0,96

  • TFGe <30 ml/minuto por 1,73 m2 e não em diálise: RR, 0,85; IC de 99%, 0,71 – 1,02

  • Diálise: RR, 0,94; IC de 99%, 0,79 – 1,11

Além disso, as estatinas diminuíram o risco de procedimentos de revascularização coronariana em 25% por 1,0 mmol/l de diminuição do LDL (RR, 0,75; IC de 95%, 0,73-0,78; p <0,0001), o que não foi significativamente afetado pela função renal basal (p = 0,9 para a tendência).

As estatinas também reduziram a morte vascular em 12% por 1,0 mmol/l de diminuição no colesterol LDL (RR, 0,88; IC 95%, 0,85-0,91; p <0,0001), com menores reduções de risco nos pacientes com pior função renal de base (p = 0,03 para a tendência).

As estatinas não afetaram significativamente a mortalidade não vascular, independentemente da TFGe.

"Os resultados fornecem evidências convincentes de que a terapia com estatinas é benéfica em muitos pacientes com doença renal crônica, com os benefícios proporcionais à redução absoluta do colesterol LDL alcançada. Eles também fornecem mais evidências de que as reduções no risco relativo alcançadas para eventos cardiovasculares graves diminuem em magnitude com a redução da função renal", escrevem o Dr. Muh Geot Wong e Dr. Vlado Perkovic, ambos da University of Sydney, na Austrália, em um editorial de acompanhamento.

Eles enfatizaram a viabilidade e a importância de grandes ensaios clínicos em pacientes com doença renal crônica avançada. Em particular, eles destacaram os benefícios cardiovasculares potenciais de novos tratamentos, como inibidores da PSCK9, e de se estudar se as estatinas podem beneficiar a função renal.

"Os resultados deste estudo levantam mais questões sobre os efeitos dos hipolipemiantes na doença avançada e destacam a importância de novos estudos com medicamentos altamente eficazes nessa população. Ao definir o que ainda não sabemos, esperamos que esta análise encorajará mais estudos que melhorem os desfechos para este grupo de pacientes de alto risco", eles concluem.

O estudo foi financiado por UK Medical Research Council, British Heart Foundation, Cancer Research UK, European Community Biomed Programme, Australian National Health and Medical Research Council, e por Australian National Heart Foundation. A maioria dos estudos incluídos na meta-análise foram financiados pela indústria farmacêutica. Um ou mais autores relatam doações, taxas pessoais e/ou para viagens de um ou mais dos seguintes: Merck, Novartis, Pfizer, Astellas, Opsona, AstraZeneca, Boehringer Ingelheim, Amgen, Vifor, Sanofi, AbbVie, Otsuka Pharma Scandinavia, Janssen, Novo Nordisk, GlaxoSmithKline, Sanofi Genzyme, Bristol-Myers Squibb, Sandoz, Alexion, Tengion, Pharmalink, BioConcept, Alimenta Medical, TransCutan, Human Life, Abbott, Amgen, Eli Lilly, Merck, Roche Diagnostics, Solvay, Sanofi -Aventis, British Heart Foundation, Medical Research Council, Cancer Research UK, e/ou Oxford University. O Dr. Perkovic refere ter sido membro de comitê diretor ou conselho consultivo em estudos financiados por AbbVie, Boehringer Ingelheim, Janssen, GlaxoSmithKline, e Bristol-Myers Squibb; ter recebido honorários de Boehringer Ingelheim, AstraZeneca, Pfizer, Roche, Merck, Eli Lilly e Servier; ter recebido uma doação para ensaio clínico de Baxter e Pfizer; e ser membro do centro de coordenação regional do SHARP. Ele também publicou e publicou e trabalhou no conselho com vários pesquisadores do SHARP. O Dr. Wong declarou não  possuir conflitos de interesses relevantes.

Lancet Diabetes Endocrinol. Publicado online em 28 de julho de 2016. Artigo, Comentário

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