Estudos trazem novas perspectivas sobre a relação obesidade e demência

Leoleli Schwartz

Notificação

22 de julho de 2016

Globalmente, as taxas de obesidade e diabetes dobraram desde a década de 1980. Em 2014, aponta a Organização Mundial de Saúde (OMS), 39% dos adultos com mais de 18 anos no planeta estavam com sobrepeso e 13% eram obesos. Em números, isso significa 1,9 bilhões pessoas com sobrepeso e 600 milhões de obesos que, juntos, somam 44% dos casos de diabetes no planeta[1,2].

Além das consequências já bem conhecidas e estudadas da hiperglicemia e da resistência insulínica (como por exemplo a retinopatia diabética), estudos longitudinais em larga escala e revisões sistemáticas mostram que o diabetes também aumenta o risco de desenvolvimento de demência, estando associado a um risco aumentado (50-100%) de desenvolvimento de Doença de Alzheimer e um aumento de 100-150% do risco de demência vascular[3,4]. Hoje, estima-se que 47,5 milhões de pessoas no mundo tenham algum tipo de demência. Em pouco mais de três décadas essa condição afetará um total de 135 milhões de pessoas - mais da metade dos casos virá de países pobres ou em desenvolvimento[5].

"Os mecanismos que desencadeiam o processo de demência ainda não foram totalmente elucidados, mas sabemos que mesmo indivíduos no estágio de pré-diabetes já demonstram declínio da função cognitiva", afirmou a neurobióloga Fernanda De Felice, que há anos se dedica ao estudo da Doença de Alzheimer e, mais recentemente, pesquisa como a resistência à insulina está relacionada à doença.

Diabetes cerebral

A hiperglicemia afeta a estrutura e a função cerebral em regiões como hipotálamo, córtex pré-frontal e hipocampo. São alterações metabólicas, vasculares e endócrinas que incluem neurotoxicidade associada à hiperglicemia e aumento do estresse oxidativo e da liberação de fatores inflamatórios tais como proteína C-reativa, interleuquina e fator de necrose tumoral α . Já a insulina é responsável por modular a plasticidade sináptica, regular a expressão de vários neurotransmissores e aumentar a disponibilidade de glicose no cérebro. Ela também pode interferir no metabolismo das proteínas beta-amilóides e tau, envolvidas no processo de desenvolvimento da Doença de Alzheimer[4,6,7,8,9,15].

Não bastassem as estimativas de aumento na incidência global de obesidade, diabetes e demência, na última década ganharam corpo as evidências de que o excesso de peso, sozinho, já é deletério ao cérebro. Ser obeso na meia-idade aumenta em 50% e 70% a chance de desenvolvimento de quadro demencial na terceira idade independentemente de outras comorbidades. E quanto maior o tempo passado com  excesso de peso, maiores são as chances de desenvolver demência acima dos 65 anos[10,11,12].

"Uma das consequências da obesidade é a resistência à leptina, que tem um papel neuroprotetor do sistema nervoso central. Além disso, na obesidade o tecido adiposo, inclusive o visceral, produz um quadro crônico de inflamação de baixo grau que já foi associado ao declínio cognitivo", explicou a endocrinologista Dra. Cintia Cercato, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO).

Com base nas evidências mais recentes sobre a relação entre obesidade e demência, o Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica da Faculdade de Medicina da USP, sob orientação da Dra. Cintia, se propôs a investigar se a perda intencional de peso poderia reverter esse quadro. Os pesquisadores avaliaram 80 idosos na faixa dos 68 anos e com IMC acima de 35 com comprometimento cognitivo e perda de memória, submetidos a uma intervenção de restrição calórica para perda de peso ao longo de um ano. Os resultados mostraram que os indivíduos com maior redução no IMC tiveram melhor recuperação cognitiva, com maior recuperação da memória verbal e da função executiva [13]. A pesquisa foi publicada em março deste ano no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism (JCEM). Outro estudo recente, também orientado pela Dra. Cintia, mostrou que a perda significativa de peso decorrente da cirurgia bariátrica pode ajudar a prevenir a demência decorrente da obesidade[14].

Anti-diabéticos contra a demência

Os trabalhos apresentados pela Dra. Cintia e equipe se juntam a uma série de estudos que avaliam como os recursos terapêuticos disponíveis atualmente podem inibir o avanço ou mesmo reverter o desenvolvimento de quadros de demência em indivíduos diabéticos ou obesos. Nesse contexto, o uso de medicamentos anti-diabéticos como os análogos do GLP-1 (como a liraglutida) têm demonstrado, em modelos animais[16] e em estudos com humanos[17], a capacidade proteger o cérebro do processo de declínio cognitivo.

"Ainda são estudos pequenos, mas temos aí uma janela de oportunidade terapêutica bem plausível para ser pesquisada mais a fundo", avalia o endocrinologista Dr. João Eduardo Nunes Salles, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

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