Ômega-3 de peixes e vegetais pode reduzir o risco de infarto agudo do miocárdio fatal

Marlene Busko

Notificação

21 de julho de 2016

STANFORD, Califórnia — Um estudo  combinado de 19 coortes internacionais com idosos e pessoas de meia-idade sem história de doença cardíaca constatou que altos níveis de ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 tiveram relação com redução do risco de evento cardíaco fatal em um período de 10 anos. Esta constatação não se aplica  ao infarto agudo do miocárdio (IAM) não fata[1].

Especificamente, para cada aumento de um desvio-padrão dos níveis dos ácidos docosapentaenoico (DPA) e docosaexanoico (DHA) derivados de frutos do mar, ou do ácido α-linolênico (ALA) de origem vegetal, a redução do risco de morte por infarto agudo do miocárdio foi de significativos 9%, aproximadamente,  no período do acompanhamento. Também houve redução semelhante deste risco, porém sem significado estatístico, com o ácido eicosapentaenoico (EPA) derivado de frutos do mar.

O estudo, realizado por Liana C. Del Gobbo (Stanford University School of Medicine, Califórnia) e colaboradores, foi publicado em 25 de junho de 2016, no JAMA Internal Medicine.

Essas conclusões são coerentes com "evidências de modelos experimentais e estudos com animais demonstrando que um dos principais efeitos dos ácidos graxos ômega-3 derivados de frutos do mar é estabilizar a membrana  cardíaca e diminuir o risco de fibrilação ventricular — mas não a ruptura da placa", afirmou Liana ao Medscape.

"É importante destacar que as pessoas consumiram o ômega-3 principalmente por meio dos alimentos e a ingestão de complementos alimentares foi praticamente nula", enfatizou. Os peixes  gordurosos fonte de ácidos graxos poli-insaturados ricos em ômega-3 são o salmão, a truta arco-íris, as anchovas e as sardinhas. As boas fontes de ácido α-linolênico são algumas oleaginosas (sobretudo as nozes), a linhaça, certos óleos vegetais (especialmente o óleo de canola) e a soja, segundo Liana.

Este estudo propõe que os médicos encorajem os seus pacientes a manter uma dieta saudável para o coração, "com, pelo menos, de duas a três porções de peixes gordurosos por semana, o que e  está em conformidade com as recomendações da American Heart Association", disse Liana.

"Mas, é claro, também queremos incentivar as pessoas a comerem frutas, vegetais e grãos integrais," afirmou. Este e outros estudos sugerem que "os peixes gordurosos, as  oleaginosas e os óleos bons para a saúde devem receber destaque na alimentação, o que também faz parte  do estilo mediterrâneo de dieta saudável. Nosso estudo corrobora  alguns desses alimentos".

Níveis de marcadores biológicos de ômega-3 e eventos cardíacos subsequentes

Estudos anteriores avaliando se os complementos com óleo de peixe poderiam reduzir o risco de eventos cardíacos chegaram a diferentes resultados, porém alguns pacientes tinham história de doença coronariana ou  ingeriam alimentos ricos em ômega-3. Além disso, a maioria dos estudos  se baseou  nos relatos dos próprios participantes sobre as suas dietas, com potencial de viés, de acordo com os pesquisadores.

Eles tinham como objetivo pesquisar a relação entre os níveis séricos de ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 no sangue e a ocorrência de infarto agudo do miocárdio fatal ou não, ou doença coronariana fatal (infarto agudo do miocárdio fatal, morte por doença coronariana, ou morte súbita), usando os dados conjuntos de 19 coortes internacionais. As coortes eram parte do Fatty Acids and Outcomes Research Consortium (FORCE), que, por sua vez, era parte do Cohorts of Heart and  Aging Research in Genomic Epidemiology (CHARGE) Fatty-Acids Working Group.

Eles analisaram dados de 45.637 participantes provenientes de 16 países (Austrália, Costa Rica, Finlândia, França, Alemanha, Irlanda, Israel, Itália, Noruega, Rússia, Singapura, Espanha, Suécia, Suíça, Reino Unido e Estados Unidos), com resultados de dosagem sérica de ácidos graxos disponíveis. Os pacientes (63% do sexo masculino) tinham média de idade de 59 anos (de 18 a 97 anos) e não tinham antecedente de infarto agudo do miocárdio, angina, revascularização coronariana ou  acidente vascular encefálico.

Durante uma mediana de 10 anos de acompanhamento houve 7.157 casos de infarto agudo do miocárdio não fatal e 2.781 casos de doença coronariana fatal.

Risco de evento cardíaco fatal durante o acompanhamento

Tipo de ácidos graxos poli-insaturados ômega-3

  Risco relativo
(intervalo de confiança de 95%)*

ALA

0,91 (0,84 a 0,98)

DHA

0,90 (0,84 a 0,96)

DPA

0,90 (0,85 a 0,96)

EPA

0,91 (0,82 a 1,00)

* Risco relativo para cada aumento de um desvio-padrão dos níveis séricos dos diferentes tipos de ácidos graxos poli-insaturados ômega-3, após ajustes por multivariáveis

De acordo com os pesquisadores, "até o momento, esta é a pesquisa que fornece as estimativas mais abrangentes sobre as associações dos ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 provenientes dos frutos do mar e das plantas, avaliadas a partir da utilização de marcadores biológicos, e a incidência primária de doença coronariana em populações livres, com vida normal, geralmente saudáveis, ao redor do mundo". O estudo mostra também que esses ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 "estão relacionados com uma incidência discretamente menor de doença coronariana fatal".

"O relativo baixo custo, a facilidade global de acesso e a sustentabilidade do ALA (bem como as conclusões às quais chegamos) corroboram a importância potencial do ALA para melhorar a saúde cardiovascular geral", sugerem os pesquisadores.

O financiamento dos 19 estudos está listado no artigo. A Dra. Liana Del Gobbo declarou ter recebido honorários de consultoria ad hoc da Life Sciences Research Organization. Os conflitos de interesse referentes aos  co-autores estão listados no artigo.

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