Ebola – a incerteza se transforma em inquietude

Dra. Carla Vorsatz

Notificação

29 de junho de 2016

Em outubro de 2015, mesmo comemorando a ausência de novos casos de doença pelo vírus Ebola no continente africano, a Organização Mundial de Saúde (OMS) preferiu adotar uma atitude expectante antes de declarar o fim da atual epidemia, iniciada em dezembro de 2013. Por quê? Em função da comprovação, na época, de dois casos de reativação viral e da incerteza quanto à frequência do fenômeno. A incerteza se transformou em inquietude.

Em 16 de março de 2016, o Ebola Situation Report, da OMS, informou a confirmação de dois novos casos da doença e um caso indeterminado em Serra Leoa ocorridos em meados de janeiro.[1]

Foram registrados nove novos casos da doença na Guiné, desde o final de fevereiro deste ano, com oito mortes. Esses casos ocorreram exatamente na zona florestal onde surgiu a epidemia, que teve 30.000 casos no mundo e cerca de 15.000 mortes.  O escritório da OMS na Guiné informou que mais de 1.000 contactantes destes novos casos foram identificados e postos sob vigilância médica. Dentre eles, quase 800 pessoas foram vacinadas, inclusive as 182 consideradas de alto risco. A imunização foi feita pelo governo com a vacina experimental VSV-EBOV e a estratégia adotada foi a vacinação em anel.[2]

Persistência do vírus

Em junho de 2015, o New England Journal of Medicine publicou um breve relato sobre a persistência do vírus Ebola no humor aquoso durante a convalescença de um quadro agudo. O paciente foi um médico norte-americano de 43 anos, coautor da publicação, que nove semanas após a negativação da viremia da primo-infecção apresentou quadro de uveíte anterior unilateral aguda grave, evoluindo para pan-uveíte.[3] O seu caso não é isolado, cerca de 25% dos sobreviventes informam problemas visuais segundo o estudo PREVAIL III, realizado em parceria entre a Libéria e os Estados Unidos para a pesquisa da vacina contra o vírus Ebola.[4]

Um estudo realizado pelo Institut de Recherche pour le Développement (coorte Postebogui)[5] e publicado em março pelo Journal of Infectious Diseases[6] confirmou a persistência do vírus Ebola no sêmen de sobreviventes da doença na Guiné, até nove meses após a sua recuperação.

Essa questão adquire uma dimensão epidemiológica e social ainda maior diante das informações publicadas em um documento redigido em conjunto por duas organizações humanitárias, a Irish Aid e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O documento informa aumento da violência sexual contra adolescentes, do número de casos de estupro e aumento de 65% de casos de gestação entre adolescentes (10 a 15% decorrentes de estupro no próprio lar) em Serra Leoa. Esses aumentos são atribuídos em grande parte a fatores sócio-comportamentais, como o confinamento dos pais e dos homens jovens devido à grave crise sanitária engendrada pela epidemia, bem como à prostituição das crianças e adolescentes órfãs, na sua luta pela sobrevivência.[7]

Na edição de maio de 2016, o Lancet publicou um relato de caso[8], formato pouco habitual neste periódico, sobre uma enfermeira escocesa de 39 anos tratada com antivirais experimentais na apresentação inicial da doença. Nove meses após sua alta hospitalar com resolução dos sintomas, ela apresentou quadro de meningoencefalite viral, com isolamento do vírus Ebola no líquido cefalorraquidiano (LCR) por PCR e cultura. Trata-se do primeiro caso de recidiva neurológica do Ebola no mundo.

Segundo o Dr. Bruce Aylward, Representante Especial da OMS para a Resposta ao Ebola e Assistente do Diretor-Geral de Emergências, a persistência do vírus no esperma já é conhecida desde o início da epidemia e atualmente sabemos que esta persistência pode perdurar durante pelo menos nove meses após a cura clínica. O mesmo ocorre no leite materno e no líquido cefalorraquidiano.[9]

Essas novas informações sobre a persistência do vírus viável nas secreções fisiológicas durante um período prolongado levantam a questão da recidiva da infecção viral, bem como da transmissão interpessoal do vírus Ebola após o desaparecimento dos sintomas, o que nos convida a revisitar com prudência os dados sobre a epidemia, particularmente na região do mundo onde ela se originou e que apresentou o maior número de casos.

 O que é a vacinação em anel

É a vacinação de todos os indivíduos suscetíveis em uma determinada área, circunscrita aos casos de uma doença infecciosa. A vacinação em anel controla um surto da doença em questão através da vacinação e do monitoramento de um "anel" de pessoas do entorno de cada caso. A ideia é formar um bloqueio de pessoas imunizadas no intuito de evitar a disseminação da doença. Esta foi a estratégia utilizada para o controle da varíola até o último caso natural da doença em 1977 – quando um caso era diagnosticado, todas as pessoas possivelmente expostas eram identificadas, vacinadas e acompanhadas. Esta estratégia também é denominada vigilância e contenção.

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