Dieta mediterrânea rica em gordura não leva a aumento de peso

Dra. Veronica Hackethal

Notificação

28 de junho de 2016

De acordo com os resultados do ensaio randomizado controlado espanhol PREvención con DIeta MEDiterránea (PREDIMED), seguir uma dieta mediterrânea que não restringe calorias e é rica em gorduras saudáveis como azeite de oliva ou nozes por cinco anos não causa ganho de peso, em comparação com uma dieta pobre em gorduras.

"Esses resultados têm implicações práticas, porque o medo de ganho de peso com alimentos ricos em gorduras não precisa mais ser um obstáculo para aderência a um padrão dietético como a dieta mediterrânea, que sabidamente fornece muitos benefícios clínicos e metabólicos, escreve o Dr. Ramon Estruch e colaboradores, do Centro de Investigación Biomédica en Red-Fisiopatología de la Obesidad y Nutrición (CIBERobn), de Barcelona, na Espanha.

"Eles também são relevantes para a saúde pública, porque fornecem suporte à não-restrição de ingestão de gorduras saudáveis no aconselhamento para a manutenção do peso corporal e saúde cardiometabólica geral, como reconhecido pelo Dietary Guidelines for Americans 2015 Advisory Committee", acrescentam os autores.

O estudo foi publicado online em 6 de junho no periódico Lancet Diabetes & Endocrinology.

O estudo é o primeiro ensaio randomizado a avaliar os efeitos a longo prazo de uma dieta mediterrânea sem restrição de calorias no peso corporal e na circunferência abdominal.

Muitas evidências associaram a dieta no estilo mediterrâneo, rica em gorduras vegetais como nozes e azeite de oliva, a uma menor mortalidade por todas as causas, por doença cardiovascular e por câncer.

No entanto, nos últimos 40 anos o aconselhamento dietético padrão para prevenção ou tratamento da obesidade tem seguido a orientação de restrição de calorias e maior atividade física, com uma crença persistente de que o alto consumo de gordura promove ganho de peso. Essas recomendações, entretanto, não necessariamente levaram em consideração os diferentes tipos de gordura. Ainda assim, algumas sociedades científicas – incluindo Organização Mundial da Saúde – continuam a recomendar limitação de gordura na dieta.

A ideia de que toda gordura na dieta não é saudável levou muitos americanos a reduzirem o consumo de gorduras, com frequência ao custo de comer calorias vazias de comidas processadas, ricas em açúcar, sal e carboidratos. A demonização de todas as gorduras, entretanto, não conseguiu conter a "epidemia" de diabetes e obesidade no país.

O ensaio clínico randomizado PREDIMED foi conduzido em centros de atenção primária conectados a 11 hospitais na Espanha entre 2003 e 2010. Ele incluiu 4282 mulheres com idade entre 60 e 80 anos e 3165 homens com idade entre 55 e 80 anos com diabetes tipo 2 ou três ou mais fatores de risco cardiovascular. Todos os pacientes eram assintomáticos e mais de 90% tinha sobrepeso ou obesidade no início do estudo. Eles tinham uma média de idade de 67 anos e 97% eram europeus brancos.

Os pesquisadores designaram os pacientes aleatoriamente para uma dieta mediterrânea sem restrição de calorias com azeite de oliva extra-virgem (n=2543), uma dieta mediterrânea sem restrição de calorias com nozes (n=2454), ou uma dieta controle com baixa gordura (n=2450). Nutricionistas treinados deram conselhos dietéticos para todos os três grupos. Os participantes não foram aconselhados a restringir calorias ou aumentar os níveis de atividade física.  

Os participantes receberam azeite de oliva extravirgem rico em polifenol e nozes (noz, amêndoa e avelã). Os resultados mostraram boa aderência nos grupos de azeite de oliva e nozes, com base nos questionários preenchidos pelos próprios pacientes, e amostras de sangue e urina de um subgrupo aleatório.

Os resultados de cinco anos mostraram que o total de gorduras aumentou nos dois grupos de dieta mediterrânea. Ambos tiveram, na verdade, aumento no consumo de gordura – de 40% para 41,8% no grupo de azeite de oliva, e de 40,4% para 42,2% no grupo das nozes (p < 0,0001 para todos) – enquanto o consumo de proteínas e carboidratos diminuiu (p < 0,001).

Todos os três grupos perderam um pouco de peso. Ao longo de cinco anos, o grupo do azeite de oliva perdeu mais peso (0,88 kg), seguido pelo grupo controle de baixa ingestão de gordura (0,6 kg) e por fim o grupo das nozes (0,4 kg). Análises multivariadas ajustadas por 12 potenciais fatores de confusão mostrou que a diferença na mudança de peso com cinco anos foi significante apenas para o grupo do azeite de oliva em relação ao grupo controle (p = 0,044).  

Da mesma forma, todos os três grupos tiveram um discreto aumento na circunferência abdominal média, mas o aumento foi menor para os grupos de dieta mediterrânea (grupo controle de baixa ingestão de gordura,1,2 cm; grupo de azeite 0,85 cm; grupo nozes 0,37 cm). Análise multivariada ajustada para 12 potenciais fatores de confusão mostrou que a diferença na mudança da circunferência abdominal com cinco anos foi significante tanto para o azeite de oliva quanto para o grupo de nozes em comparação com o grupo controle (p = 0,048 e 0,006, respectivamente).

Em um comentário associado, Dr. Dariush Mozaffarian da Friedman School of Nutrition Science and Policy da Tufts University, em Boston, Massachusetts, escreve que esses resultados fornecem "mais evidência robusta de que adicionar de forma liberal alimentos saudáveis na dieta, incluindo escolhas ricas em gorduras, como nozes e azeite de oliva extra-virgem, não aumenta o ganho de peso".

"Esses importantes achados devem ser divulgados em todo mundo", ele afirma, ao chamar atenção para a necessidade de revisão das diretrizes de nutrição.

Décadas de aconselhamento nutricional ignoraram a qualidade da comida e os diferentes efeitos de ácidos graxos específicos, ele destacou.

Ao enfatizar restrição de caloria e gordura, esse aconselhamento produziu "alertas paradoxais e ressalvas quanto a comer alimentos ricos em gorduras saudáveis" e

levou à proliferação de alimentos com baixo teor de gordura – com frequência ricos em açúcar e carboidratos – na dieta americana.

"Evidências científicas modernas fornecem suporte a uma ênfase em comer mais calorias de frutas, nozes, vegetais, feijões, peixes, iogurte, óleos vegetais ricos em fenóis, e grãos inteiros minimamente processados; e menos calorias de alimentos altamente processados, ricos em amido, açúcar, sal ou gordura trans. Nós ignoramos essa evidência – incluindo esses resultados do ensaio PREDIMED – sob nosso próprio risco", ele conclui.

As empresas de alimento Hojiblanca e Patrimonio Comunal Olivarero doaram azeite extra-virgem e California Walnut Commission, Borges SA, e Morella Nuts doaram nozes para o estudo.

Um ou mais autores relataram ser membro de conselho, palestrante, ter recebido doação, ter feito consultoria, ter recebido apoio de viagem e/ou outro suporte de um ou mais dos seguintes: Research Foundation on Wine and Nutrition (FIVIN), Beer and Health Foundation, European Foundation for Alcohol Research (ERAB), Instituto Cerventes, Fundación Dieta Mediterránea, Cerveceros de España, Lilly Laboratories, AstraZeneca, Sanofi­Aventis, Novartis, Amgen, Bicentury, Grand Fountaine, International Nut and Dried Fruit Council, Danone, Font Vella Lanjaron, Nuts for Life, Eroski, Nut and Dried Fruit Foundation, Eroski, Menarini, Mediterranean Diet Foundation, Residual Risk Reduction Initiative (R3i) Foundation, Omegafort, Ferrer International, Abbott Laboratories, Merck and Roche, Esteve, Mylan, LACER, Rubio Laboratories, Kowa, Unilever, Boehringer Ingelheim, Karo Bio, FIVIN, Cerveceros de España, Brewers of Europe (Belgium), Wissotsky Tea (Israel), California Walnut Commission, Merck Sharp & Dohme, Alexion, Aegerion, Amgen, e/ou Pfizer, não relacionado ao trabalho enviado.

O  Dr. Mozaffarian declarou ter recebido honorários ou taxas de consultoria de Boston Heart Diagnostics, Haas Avocado Board, AstraZeneca, GOED, DSM, e Life Sciences Research Organization e ter recebido direitos por capítulo do UpToDate. Ele também é nomeado em uma patente da Universidade de Harvard para o uso de ácido trans-palmitoleico na identificação e tratamento de doença metabólica. Ele recebeu apoio financeiro por seu comentário de National Heart, Lung, and Blood Institute, National Institutes of Health.

Lancet Diabetes Endocrinol. Publicado online em 6 de junho, 2016. Resumo. Comentário

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