Pesquisa mostra que bactéria em mosquito pode barrar a transmissão do Zika

Leoleli Schwartz

Notificação

18 de maio de 2016

O combate à disseminação do vírus Zika pelo mosquito Aedes aegypti ganhou mais um reforço de peso. Uma equipe de cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) demonstrou que mosquitos com a bactéria Wolbachia pipientis, não conseguem transmitir o vírus.

O estudo, publicado na edição de 4 maio no periódico Cell Host & Microbe, é parte do projeto “Eliminar a Dengue: Desafio Brasil” que tem como meta estudar o uso da bactéria Wolbachia como uma alternativa segura e autossustentável no controle da disseminação de doenças como dengue, chikungunya, febre amarela e zika.

Vetor sob controle

A proposta do projeto é soltar mosquitos com a bactéria em locais com altos índices de casos destas doenças para, gradativamente, substituir a população selvagem de mosquitos por insetos com Wolbachia – que são incapazes de transmitir o vírus. A estratégia vem sendo estudada em outros quatro países que, além do Brasil, fazem parte do projeto: Austrália, Colômbia, Indonésia e Vietnã.

O ciclo de transmissão do vírus Zika começa quando o Aedes aegypti pica uma pessoa infectada. O vírus se multiplica no organismo do inseto e infecta diversos tecidos até chegar às glândulas salivares, de onde se mistura à saliva e é transmitido a outro ser humano por meio da picada. Apenas as fêmeas picam, pois precisam de sangue para o desenvolvimento e a maturação dos ovos nos ovários. Uma fêmea pode dar origem a 1.500 mosquitos durante a sua vida. Mas quando a Wolbachia está presente no organismo do mosquito, este ciclo é interrompido e a fêmea não transmite o vírus zika quando pica um ser humano.

O que a Wolbachia faz

Presente em cerca de 40% dos insetos terrestres, a Wolbachia estabelece relações de simbiose e parasitismo com seus hospedeiros, e está envolvida em processos relacionados à reprodução. Como na natureza o Aedes não carrega a bactéria, foram necessários anos de pesquisas, realizadas na Austrália, para introduzir a Wolbachia nos ovos do mosquito por meio de um procedimento de microinjeção. A bactéria é intracelular e transmitida maternalmente. Sendo assim, os mosquitos fêmeas com Wolbachia a transmitirão para seus filhotes. É justamente nesse ponto que a bactéria oferece uma grande vantagem: quando mosquitos macho com Wolbachia acasalam com fêmeas sem a bactéria, os ovos postos por essas fêmeas não eclodem – ou seja, não dão origem a novos mosquitos.

Quando machos com Wolbachia acasalam com fêmeas que já têm a bactéria, toda a nova geração resultante desse acasalamento carregará a bactéria. Da mesma forma, se uma fêmea com a Wolbachia cruza com um macho sem a bactéria, a prole resultante também terá a Wolbachia. Desse modo, depois de algumas gerações, todos os insetos em uma determinada população terão a bactéria em seu organismo.

O mecanismo pelo qual a Wolbachia impede a transmissão do Zika ainda não está esclarecido. Uma teoria é a de que o Aedes infectado com a bactéria passaria a expressar mais genes ligados à imunidade, o que de alguma forma impediria a replicação do vírus no organismo do inseto. Outra hipótese é de que a replicação do vírus seja prejudicada por inibição competitiva.

“Ambos competiriam por componentes celulares necessários para a replicação e por isso a Wolbachia, que já estava na célula antes do vírus, ganharia a batalha. Estudos já comprovaram que ela não sai na saliva do mosquito e por isso não representa riscos à saúde humana”, explica Luciano Andrade Moreira, líder do estudo e coordenador do projeto no Brasil.

Pesquisa

Para chegar aos resultados publicados, Moreira e colegas utilizaram quatro grupos de mosquitos Aedes aegypti, dos quais dois eram compostos por mosquitos com Wolbachia e dois por insetos sem a bactéria. Os quatro grupos foram alimentados com sangue humano contendo duas cepas de vírus Zika circulantes no Brasil – 50% recebeu sangue com uma linhagem isolada em São Paulo e o restante com uma cepa isolada em Pernambuco. 

Após 14 dias do contato com o vírus, foram coletadas amostras de saliva de mosquitos com Wolbachia e de mosquitos sem a bactéria. Utilizando um modelo em laboratório para simular uma infecção mosquito a mosquito, os pesquisadores infectaram então um novo grupo de mosquitos composto por 160 indivíduos. Metade dos Aedes recebeu amostras de saliva de mosquitos com a bactéria e a outra metade recebeu saliva de mosquitos sem Wolbachia. A análise desse segundo grupo de insetos mostrou que nenhum dos mosquitos que receberam saliva com Wolbachia se infectou com o vírus Zika. Por outro lado, 85% dos que receberam saliva sem a bactéria ficaram infectados com o vírus.

“O grande ganho do estudo foi demonstrarmos que a saliva dos Aedes com Wolbachia infectados com o Zika não transmitiu o vírus para outros mosquitos” disse Moreira em entrevista por telefone ao Medscape.

Avanços

Atualmente 40 localidades nos cinco países participantes do programa já receberam os mosquitos com Wolbachia e alcançaram o índice de 70% de insetos hospedeiros da bactéria. Yogyakarta, na Indonésia, já é considerada um exemplo de sucesso da estratégia. A liberação de mosquitos com Wolbachia começou em janeiro de 2014 em áreas selecionadas da cidade e no último ano não foram observados casos de dengue por transmissão local nas áreas onde a bactéria se estabeleceu no organismo dos mosquitos.

De acordo com a coordenação local do projeto, ainda é cedo quantificar a redução do número de casos de dengue na população. Um estudo randomizado controlado para avaliar o impacto da estratégia na redução do número de casos começará em 2017. Os pesquisadores indonésios esperam publicar os resultados em 2019.

No Brasil, o ‘Eliminar a Dengue’ trabalha desde 2012 com os mosquitos infestados com Wolbachia e já observou que a estratégia surte efeito, com maior ou menor grau de sucesso, sobre a disseminação dos vírus de dengue e Zika pelo Aedes aegypti. Até o momento, no entanto, não há dados suficientes para afirmar se a estratégia tem algum impacto na redução do número de casos destas doenças em seres humanos.

Cell Host & Microbe. Publicado online em 4 de Maio de 2016. Artigo

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