Médicos dizem que Venezuela já tem mais que 500 mil casos de Zika

Teresa Santos

Notificação

11 de maio de 2016

Médicos venezuelanos afirmam que Zika já é epidêmica no país, mas o governo venezuelano ainda reluta em admitir o problema. Dados da Sociedade Venezuelana de Saúde Pública (SVSP) e da ONG Red Defendamos la Epidemiología Nacional (RDEN) apontam que, entre junho/julho de 2015 e fevereiro de 2016, já ocorreram mais 500 mil casos de zika no país. Em março deste ano, a Academia Nacional de Medicina (ANM) da Venezuela declarou formalmente que o país enfrenta uma crise humanitária de saúde. No entanto, último Boletim Epidemiológico divulgado no site do Ministério do Poder Popular para a Saúde (MPPS) da Venezuela, datado ainda de 2015, não traz nenhuma informação sobre casos de zika no país.

Em entrevista ao Medscape, a infectologista Dra. Ana Carvajal, membro da SVSP, conta que desde novembro de 2014 o governo suspendeu a publicação do boletim epidemiológico do MPPS, só voltando a divulgá-lo recentemente. “Na verdade, há 17 anos, a publicação deste boletim foi interrompida pelo menos três vezes, privando os profissionais de saúde de informações valiosas sobre doenças de declaração obrigatória, incluindo epidemias como dengue, malária, chikungunya e zika, ou surtos de doenças, tais como a doença de Chagas aguda grave, meningite meningocócica, entre outras. Essa informação é importante para a formulação de estratégias de controle e planejamento de assistência do paciente”, considera a Dra. Ana, que vem acompanhando a evolução das arboviroses na América Latina nos últimos anos e publicou trabalhos sobre o tema nas revistas Medicina Interna (Caracas) e Gaceta Médica de Caracas.

Da mesma forma que não há informações oficiais publicadas no site do Ministério sobre os casos de zika, a Venezuela também não vem reportando, segundo Ana, dados sobre possíveis complicações associadas a essa infecção. De acordo com o alerta de 10 de março de 2016 da  Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) foram notificados na Venezuela, entre a semana epidemiológica 49 de 2015 e 6 de 2016, 578 casos de síndrome de Guillain-Barré (SGB), dos quais 235 apresentavam sintomas de infecção por zika.

“O alerta da OPAS de 17 de março diz que a Venezuela é um dos países com aumento de casos de SGB, mas não especifica os novos dados”, destaca a especialista. Vale lembrar que, em todo mundo, as notificações são feitas por profissionais de saúde, enviadas aos seus ministérios que, automaticamente, reenviam a Organização Mundial de Saúde, via Opas, no caso das Américas.

Sobre a microcefalia, a pesquisadora explica que o médico Jaime Torres, do Instituto de Medicina Tropical, relatou em fevereiro de 2016 um caso de aborto cujo feto tinha microcefalia. A ocorrência se deu no estado de Monagas e, segundo Carvajal, seria o primeiro caso de microcefalia no país possivelmente associada ao virus da zika. "No Hospital Universitário de Caracas, em janeiro 2016 foi atendida uma gestante com um embrião morto ainda no útero. Foi realizado o RT-PCR em restos ovulares, com resultado positivo para o vírus Zika". Outro bebê, nascido no fim de abril, teve o diagnóstico de microcefalia após sua mãe contrair Zika durante a gravidez. O caso foi relatado à agência de notícias Associated Press pela Sociedade Venezuelana de Infectologia. É o primeiro caso de microcefalia associada à Zika em que o bebê sobrevive, segundo a presidente da sociedade Dra. Elia Sánchez.

O governo venezuelano, no entanto, reluta em divulgar as informações oficiais sobre casos de microcefalia na Venezuela no país. Dra. Ana diz que as informações da OPAS dão uma dimensão do problema: “Em 9 de Março, o Ministério da Saúde da República Bolivariana da Venezuela apresentou uma atualização epidemiológica de ZIKAV (virus zika) no país. Entre as semanas epidemiológicas (SE) 41 de 2015 e 6 de 2016, 23 entidades federais relataram um total de 16.942 casos suspeitos de ZIKAV. Das 801 amostras analisadas para ZIKAV por RT-PCR, 352 (44%) foram positivas. Do total de casos suspeitos de ZIKAV, 941 são em mulheres grávidas (9,4%). Entre SE 1 e 6, de 2016, um total de 226 amostras de grávidas com suspeita de infecção pelo vírus zika foram analisadas por RT-PCR, dos quais 153 (67,7%) foram positivos para ZIKAV”, informa a médica.

Dra. Ana Carvajal

Imagem: Sérgio Xavier

Estas informações  não estão disponíveis no site do MPPS da Venezuela, tampouco estão reportadas nos boletins epidemiológicos porque eles não estão sendo publicados, segundo a Dra. Ana. “O protocolo de atendimento a gestantes com zika foi publicado recentemente e está disponível no site do MPPS, mas não foi produzido por especialistas e peritos envolvidos no cuidado de grávidas e de recém-nascidos com possível microcefalia”, acrescenta.

Para a especialista, as medidas implementadas até agora pelo governo venezuelano para controlar a infecção pelo vírus da zika são limitadas e tanto a sociedade como muitos profissionais de saúde desconhecem a doença e as possíveis complicações neurológicas pós-infecciosas, como a SGB, assim como microcefalia e outras malformações congênitas.

A médica alerta que o país não está preparado para enfrentar esse problema. “Estamos diante de uma crise humanitária de saúde, que foi formalmente declarada pela Academia Nacional de Medicina (ANM), maior instituição acadêmica no país, no dia 17 de março de 2016. Há falta de medicamentos em 70 a 80% da rede de farmácias públicas, falta de reagentes para o diagnóstico de muitas doenças, incluindo as infecciosas, escassez de antibióticos e outros medicamentos e há sérias deficiências no sistema de saúde pública para o atendimento ao paciente. A crise está chegando às instituições privadas de saúde”, ressalta.

Segundo o jornal independente venezuelano La Razón,a Rede de Sociedades Científicas Médicas da Venezuela (RSCMV), que reúne 42 sociedades médicas do país e quatro associações, emitiu um comunicado com a ANM afirmando que a "Venezuela está em terapia intensiva e não há suprimentos médicos para resgatá-la" e que a "saúde pública está em colapso".

A crise, de acordo com a Dra. Ana Carvajal, vem dificultando o atendimento de pacientes com SGB porque, por exemplo, muitos hospitais não têm aparelho para realizar aférese. Além disso, ela lembra que há déficit de imunoglobulinas, usadas no regime terapêutico de pacientes com essa condição neurológica: “embora recentemente milhares de doses tenham sido importadas, o acesso a este tratamento não é tão fácil. É preciso solicitá-lo através de um e-mail ou ligar para um telefone centralizado. O Quimbiotec (Complexo Tecnológico Farmacêutico do Estado Venezuelano) que produzia imunoglobulina e outros derivados de sangue ficou paralisado por seis meses; recentemente, retomou as operações, mas não sei qual sua operacionalidade no momento”, afirma.

Em outra reportagem do La Razón, a jornalista Patricia Marcano relata a situação do Hospital Universitário de Caracas (HUC). A instituição apresenta uma crise, com falta de vários insumos, materiais, medicamentos, leitos e aparelhos. Na reportagem, Gherzon Casanova, presidente da Sociedade de Médicos Residentes e Internos (Somir) do HUC afirma que os pacientes estão praticamente apenas sendo acompanhados, pois não é possível reverter as enfermidades nas condições atuais. No setor de emergência, segundo ele, "tem se observado um aumento da mortalidade por falta de cateteres de hemodiálise". No caso do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia, a matéria informa que, após dar à luz, as mulheres esperam sentadas em cadeiras no corredor até 24 horas para conseguir um leito. Quanto às infecções por zika, somente esse ano o hospital já atendeu 32 pacientes com SGB, sendo que sete precisaram de ventilação mecânica e dois morreram. Segundo a reportagem, a situação é similar no Hospital Vargas de Caracas, no Ricardo Baquero González (Periférico de Catia) e no Leopoldo Manrique Terreno (Periférico de Coche), conforme denunciado em assembléia de 10 de março, quando se comemorou o Dia do Médico no país.

Para a Dra. Ana, o maior desafio para o governo venezuelano, no momento, é “enfrentar a grave crise no setor da saúde. A ANM recomendou declarar crise humanitária de saúde na Venezuela, mas o governo se recusa, porém essa declaração permitiria ajuda imediata da OMS, da OPAS e outras organizações internacionais, bem como ONGs e países amigos”.

Segundo a especialista, com relação à infecção por zika, o governo enfrenta vários desafios, começando pela necessidade de garantir informações confiáveis para os profissionais de saúde e para a comunidade, o que exige, entre outras ações, a publicação do boletim epidemiológico semanal de forma regular e oportuna. Ela cita ainda outros pontos importantes como democratizar ou facilitar o acesso a testes diagnósticos (RT-PCR) para pacientes com indicação, pois atualmente embora tanto o Instituto de Medicina Tropical da Universidade Central da Venezuela como o Instituto Venezuelano de Investigações Científicas (IVIC) façam o RT-PCR para zika, em nível público, o exame só é realizado no Instituto Nacional de Higiene. As duas primeiras instituições só fazem exames para fins de investigação. Assim, a pesquisadora considera importante que os equipamentos necessários para realizar o diagnóstico do vírus da Zika sejam instalados nas principais regiões do país.

Para a Dra. Ana, representam ainda desafios para o governo: “assegurar o acesso ao tratamento (imunoglobulinas, máquinas de aférese, albumina, soluções) e unidades de terapia intensiva aos pacientes que apresentam complicações neurológicas, como SGB ou outras complicações neurológicas; garantir o acesso das mulheres grávidas aos serviços de saúde reprodutiva  – não é tarefa fácil, considerando a crise no setor da saúde, além do fato de pouco mais de 50% das grávidas não acompanharem sua gestação – assegurar cuidados de saúde a pacientes com infecção aguda pelo vírus da zika, assim como o tratamento sintomático para reduzir a febre (paracetamol) ou diminuir a dor, além de anti-histamínicos para aliviar a coceira; preparar-se para a atenção de potenciais casos de microcefalia; garantir repelentes e mosquiteiros a mulheres grávidas para ajudar na proteção contra o mosquito transmissor; garantir o uso de preservativos para as mulheres em idade fértil que querem adiar a gravidez e envolver a comunidade na luta contra o mosquito transmissor”, pontua, lembrando que o país vivencia ainda racionamento de água em várias localidades, portanto, “torna-se também necessário ensinar a população a armazenar água de forma correta”.

Em um artigo que ainda será publicado na revista Medicina Interna, Carvajal fala também sobre recomendações relativas ao vírus da zika e gestantes. Ela lembra, por exemplo, da necessidade de as autoridades de saúde estabelecerem um sistema de vigilância para detectar o possível aumento na incidência de microcefalia e outras malformações congênitas, assim como abortos, natimortos e óbito neonatal possivelmente associados ao ZIKAV. Destaca também a importância de monitorar gestantes que vivem em países onde há transmissão contínua do vírus da zika, bem como a necessidade de oferecer eco fetal para todas as grávidas entre as semanas 18 e 20 que vivem em regiões de transmissão contínua desse vírus. Além disso, defende que as autoridades de saúde deveriam trabalhar em conjunto com as sociedades científicas, universidades e academia para enfrentar as possíveis complicações associadas à zika.

Periartrite de uma paciente venezuelana com Zika.

Imagem: Verònica Rangel

Foto de uma paciente de 24 anos com diagnóstico de zika, atendida pela médica Ana Carvajal. A paciente é solteira, gesta (0) zero, se observa nas mãos periartrite das falanges e edema (semelhante à chikungunya) e conjuntivite bilateral. Tem também erupção cutânea. Fotos reproduzidas com autorização da paciente.

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