Opinião

Edição de genes: o maior acontecimento da biomedicina em décadas?

Dr. Eric J. Topol; George Church

Notificação

8 de abril de 2016

Dr. Topol: Isso é complicado.
Church: É disso que precisamos nos lembrar e é por isso que fazemos ensaios cínicos.

Edição de genes de embriões
Dr. Topol: Falando sobre testes clínicos, atualmente existem vários em edição do genoma para doenças raras e algumas que não são tão raras, como hemofilia e anemia falciforme. É interessante fazer esses ensaios clínicos? 
Church: Existem 2000 ensaios clínicos para a terapia gênica em geral. Apenas uma pequena parcela deles lida com edição de genes. Mas em 2017 começaremos a ver ensaios com o CRISPR. E eles vão crescer até chegarem a ser tão importantes como o restante da terapia gênica. Algumas são ainda mais comuns que hemofilia e anemia falciforme – existem doenças infecciosas, HIV e câncer. Existem ainda ensaios clínicos em células T CAR para terapia anticâncer.

Dr. Topol: Um bebê foi salvo pela edição de células T com TALENs [nucleases efetoras semelhantes à ativadores de transcrição]; foi a primeira vez que a vida de uma pessoa foi salva pela edição gênica, mesmo que tenha sido ex vivo.

Agora, há muitas controvérsias com o CRISPR. Ao invés de testes clínicos que começarão no próximo ano, existe a polêmica sobre edições de embrião.

Church: Eu presumo que isso seria também um ensaio clínico.

Dr. Topol: Sim, mas é diferente daquelas pessoas que possuem uma patologia – estamos falando de um ser humano não nascido. Muitas questões éticas foram levantadas. O que você pensa a respeito?

Church: Existe a tendência de combinar o teste clínico, e a segurança e eficácia que todas as novas tecnologias têm, com preocupações sobre usá-las de alguma forma que provavelmente não estará entre as prioridades de uso. Por exemplo, se ela está restrita a reverter doenças genéticas muito graves, como Tay-Sachs, para uma variante de DNA normal – por exemplo, no esperma masculino – você não estará arriscando embriões. Na verdade, você poderia salvar embriões porque a alternativa é tipicamente terminar a gestação.

Este cenário não foi muito discutido. Usualmente as pessoas pulam para algum cenário daqui a 50 anos no futuro, no qual estaremos criando super bebês. Precisamos focar naquilo que é a via médica provável. Seria muito difícil recusar a opção de evitar um aborto ou ter uma família sem Tay-Sachs.

Dr. Topol: No Reino Unido, eles estão progredindo, pelo menos com pesquisas. Em que ponto estamos nos Estados Unidos. Isso foi banido?

Church: É legal na China, Estados Unidos, Reino Unido e em vários lugares. Mas em alguns desses lugares, é necessário financiamento privado.

Dr. Topol: Foi o que eu quis dizer – isso não é financiado pelo governo, os Institutos Nacionais de Saúde (NIH), aqui nos Estados Unidos.

Church: Isso é diferente de uma proibição. Por exemplo, a pesquisa com células-tronco embrionárias não era financiada pelo governo, mas explodiu economicamente nos estados da Califórnia, Massachusetts e em alguns outros lugares, onde US$ 3 bilhões foram direcionados para essas pesquisas. Isso é muito diferente de não ter financiamento. Na verdade, pode involuntariamente ter a consequência oposta que é, se o NIH não financia as pesquisas, essas pesquisas serão financiadas pela iniciativa privada. 

Disputa de patente do CRISPR
Dr. Topol: As pesquisas poderiam acontecer mais rapidamente e teriam mais financiamento. No entanto, é um ponto de controvérsia porque que elas pudessem ser usadas de forma que fosse preocupante para as pessoas. Outra controvérsia é toda essa disputa de patente, que talvez seja uma distração, mas que recebeu uma grande cobertura na mídia. Qual é seu ponto de vista sobre o assunto?

Church: Eu não acho que seja uma distração maior que a corrida pelo sequenciamento do genoma humano. Se é o que prende a atenção das pessoas, então finalmente as pessoas estão prestando atenção nas ciências, embora não da forma que eu gostaria. Felizmente, eu não estou diretamente envolvido na disputa de patente porque nossas patentes no CRISPR não estão sendo contestadas.

Dr. Topol: Você colaborou com Jennifer Doudna e o grupo de Berkeley?
Church: Eu trabalhei com ela, mas nunca fomos fomos coautores de artigos juntos. Fui coautor de vários artigos com Feng Zhang. Não estou tomando partido. Eu gosto de ambos.

Dr Topol: O que você acha do artigo de Eric Lander “The Heroes of CRISPR” no Cell [1] de algumas semanas atrás?

Church: Eu me ofereci para revisá-lo com antecedência, mas ele só me entregou o artigo algumas horas antes de ser publicado. Foi uma boa ideia dar os créditos, mas outros enxergaram alguns vieses e, no final, não foi dado muito crédito aos jovens que fizeram o trabalho de verdade. Essa foi uma das minhas principais críticas. Se você vai dar crédito, que seja para Luhan Yang, Prashant Mali, Le Cong, e por aí vai.

O próximo passo
Dr. Topol: Você diria que a edição de genoma é o maior acontecimento da medicina nas últimas décadas?

Church: Eu não preciso dizer isso, porque outras pessoas já disseram. Temos três outras tecnologias que não fazem a quebra da fita dupla. Um dos problemas das quebras é que isso é uma reação colateral, chamada de junções terminais não-homólogas, levando a uma edição não precisa. É edição muito imprecisa. Qualquer método que seja facilmente reprogramado sem quebras da fita dupla seria ainda melhor.

Dr. Topol: Mesmo com a tecnologia que existe atualmente, ano passado você publicou[2] que poderia editar 60 genes simultaneamente e trouxe de volta a ideia de xenotransplantes.

Church: Sim, é verdade. Eu posso estar colocando o carro na frente dos bois. Devemos comemorar onde estamos. Mas, mesmo com CRISPR, parecia intimidador mudar mais de um ou dois genes de uma vez. Nós usamos 62 retrovírus endógenos, que basicamente custaram, há 15 anos, um investimento de um bilhão de dólares dedicados ao transplante de porcos para humanos, o que era uma direção promissora. Com o CRISPR, conseguimos fazer isso em 14 dias.     

Dr. Topol: A ideia de que, com a edição de genoma, poderíamos lidar com o grande problema de doadores e órgãos para transplante é realmente impressionante. Qual é o próximo passo? Você já fez tanto. Qual será o grande passo para os próximos anos?

Church: Vamos usar o CRISPR para trabalhar com espécies selvagens, porque grande parte dos nossos problemas de saúde são causados por vetores insetos e roedores – doença de Lyme, Zika, malária e assim por diante. Mas o próximo passo tem a ver com o BRAIN [Pesquisa Cerebral através de Neurotecnologias Inovadoras Avançadas]. Temos grande financiamento de Atividade de Projetos de Pesquisa Avançados (IARPA) para conectar mapas de atividade cerebral com o conectomo no nível de resolução sináptico, e transformar isso em algoritmos visuais de aprendizado artificial, que é a aplicação indispensável na internet, onde você tem carros sem motoristas, reconhecimento de imagens do Google, entre outros. Ainda está muito atrás de onde deveria estar, devido à falta de entendimento de como o córtex visual dos mamíferos funciona.

Dr. Topol: O seu impacto na iniciativa BRAIN será muito significativo. É surpreendente que você tenha coberto todas essas áreas, e você esteja fazendo contribuições importantes em cada uma. Nos dá a sensação de que existe muito mais a ser alcançado.

Foi fantástico. Se há uma pessoa interessante em toda biomedicina, é você.
Gostaria que tivéssemos horas para conversar para que o público do Medscape pudesse ouvir mais sobre suas ideias e o que você pensa que serão os caminhos para o futuro. Mas muito obrigado por conversar conosco.

Muito obrigado a todos vocês no Medscape. Continuaremos a trazer algumas das pessoas mais interessantes no mundo da medicina, como certamente é o caso com George Church. Obrigado.

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