Opinião

Edição de genes: o maior acontecimento da biomedicina em décadas?

Dr. Eric J. Topol; George Church

Notificação

8 de abril de 2016

Dr. Topol: Isso é possível?

Church: Não sei. Tivemos experiências mais estranhas que essas. Eles na verdade gostam do frio. Eles brincam na neve. É só dar um jeito de colocá-los de zero a menos 40 graus.

Dr. Topol: Este é um projeto paralelo?

Church: Este é um projeto paralelo. Ele tem um financiamento adequado, mas nosso trabalho principal está relacionado a buscar tratamentos para doenças humanas.

Dr. Topol: Sim, vamos chegar lá. Mas você está envolvido em vários projetos – você precisa de muito estímulo! Eu não consigo imaginar você entediado.

Church: Não, definitivamente não.

Dr. Topol: Então quantas pessoas trabalham no seu laboratório?

Church: Temos cerca de 100 no momento.

CRISPR: Sua promessa e controvérsia
Dr. Topol: Não é apenas outra área, mas é uma área de esforço significativo no momento – edição de genoma. A revolução CRISPR nos pegou de surpresa. Eu e você temos aproximadamente a mesma idade e vivenciamos a Conferência Asilomar [sobre DNA Recombinante]. Nos anos 70, qual era a grande controvérsia?

Church: Naquela época, a polêmica era se nós poderíamos acidentalmente causar um problema - por exemplo, colocar um gene Se40 do câncer em um vetor E.coli, uma bactéria intestinal, e dessa forma acidentalmente causar câncer de cólon. Nenhum daqueles medos se materializou, mas eles foram combinados com inseguranças que existiam desde que a fertilização in vitro começou, mais ou menos na mesma época. Mesmo se nós não cometêssemos um erro, poderíamos começar a desvalorizar a vida ou algo parecido, o que também ainda não aconteceu. Agora que nós temos formas realmente poderosas de trabalhar com células humanas, aquelas questões voltaram à tona.

Dr. Topol: Vamos agora adiantar para o momento atual, quando a edição do genoma se tornou o centro das atenções. Você está liderando o tema. Para aqueles que não estão totalmente familiarizados, você poderia descrever por que o CRISPR é tão importante?

Church: O nosso grupo e outros estão buscando cerca de dez formas diferentes de fazer edição de genoma desde que eu comecei no meu laboratório em 1986. O CRISPR é a primeira técnica que funciona bem com todas as espécies. Nós temos algumas que funcionam bem em E.coli, mas não funcionam em humanos. Nós temos outras que funcionam em humanos mas eram muito difíceis de serem aplicadas para um novo gene. Essa é a mais fácil. Por US$ 60 você pode adquirir um kit de uma organização sem fins lucrativos e com um laboratório de microbiologia comum, você estará funcionando. Todos os organismos foram testados e a técnica funciona. Mas o entusiasmo é principalmente acadêmico. Quanto à terapêutica, na qual se gasta meio bilhão a um bilhão de dólares em testes clínicos, eu não acho que isso seja tão significativo. Mas aí a segunda característica aparece, que não é apenas a facilidade de uso, mas a eficiência de edição do DNA.

Dr. Topol: Isso quer dizer precisão extrema – quando você quer tirar uma única adenina de uma sequência e consegue. Você não quer efeitos colaterais, porque eles podem ter consequências prejudiciais. O quão precisos nós somos na edição do DNA?

Church: Imediatamente após instalado, com um bom programa de computador prevendo onde deve ser feita a edição, pode-se reduzir as taxas de erro para mais baixas que as taxas de mutação espontânea. Existem cerca de seis novas tecnologias para melhorar a taxa de erro na edição, e é difícil entender por que se nós já estamos abaixo da taxa de mutação espontânea. Mas são outro fator de 1000. Se você fizer isso com uma linhagem de células clonais, como uma célula tronco, e caracterizar este clone, significa outro fator de 1 milhão. Então estamos com várias ordens de magnitude. Isso não significa que alguma coisa não possa dar errado, mas será um erro de biologia dos sistemas e não no DNA não visado. Esta seria minha previsão.

Dr. Topol: Então você acha que a probabilidade de se ter uma consequência prejudicial após vários anos, como câncer, é pequena?

Church: Desde que você faça uso das melhores técnicas, teria que alterar um gene supressor de tumor, o que significa que você teria DNA não visado. Uma vez que você pode testar tudo isso com antecedência, isso é improvável. Mas há questões de biologia dos sistemas. Quando você altera uma coisa por qualquer mecanismo, por medicamento ou terapia gênica, você tem um efeito secundário que não tem nada a ver com o DNA.

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