Zika: a história de um vírus emergente

Dr. Marc Gozlan

Notificação

15 de março de 2016

A evolução molecular do Zika

Análises filogenéticas têm sido conduzidas para estudar a evolução molecular do vírus Zika, um flavivírus cujo genoma consiste numa molécula de RNA fita simples com 10.794kb. Um estudo de 2014 indica que o vírus emergiu na Uganda ao redor de 1920, mais provavelmente entre 1892 e 1943, o que é congruente com o primeiro isolamento conhecido do Zika na Uganda em 1947.[15]

Os achados revelam no mínimo duas linhagens virais independentes na África Oriental (em concordância com dois subtipos africanos previamente propostos) e uma linhagem asiática. Essa terceira linhagem do vírus Zika se originou de um fluxo migratório a partir da África Oriental. Mais precisamente, parece ter se originado na Ugando, e provavelmente se espalhou para a Malásia próximo a 1945. De lá, o vírus chegou a Micronésia ao redor de 1960, formando a cepa asiática, de acordo com um estudo conduzido por pesquisadores do Institut Pasteur de Dakar (Senegal) e da Universidade de São Paulo (Brasil).[15]

Outro estudo, publicado em 2012, de pesquisadores do Texas Medical Branch em Galveston e colegas de Phnom Penh, Camboja,[17] revelou a existência da cepa Zika Camboja que divergiu da cepa da Malásia no passado recente. De acordo com esses pesquisadores, o ancestral mais comum da cepa do Camboja tem circulado no Sudeste da Ásia no mínimo desde metade do século XX.[17] As investigações indicaram que as cepas circularam durante a epidemia da Ilha Yap em 2007,[17] o surto de 2013-2014 na Polinésia Francesa, e a epidemia de 2015 no Brasil pertenceram à linhagem asiática.[32,42]

Uma crise de saúde global

A breve história do vírus Zika se assemelha a de outro vírus emergente, o vírus chikungunya. Conforme Didier Musse e seus colegas[43] escreveram no último ano no Lancet, o chikungunya foi descrito em 1952 na África; ele emergiu na Ásia e provocou uma grande epidemia na Índia e sudeste da Ásia entre 1950 e 1980, antes de desaparecer epidemiologicamente. Em 2004, ele reemergiu no leste da África e se espalhou novamente pela Ásia, antes de se espalhar pelo mundo. De forma semelhante ao vírus da dengue, o chikungunya agora circula em todos os continentes habitados, tornando-se – ao longo de uma década – um problema de saúde pública global.[43]

Cerca de 70 anos se passaram desde o primeiro isolamento do vírus Zika. O que podemos dizer sobre o futuro? É qualquer coisa, exceto previsível.[43] Antes confinado à estreita região equatorial pela África e Ásia, o vírus Zika está agora presente em todos os lugares em que o mosquito vetor circula.[41] Um deles é o mosquito tigre, A. albopictus; essa espécie de Aedes em rápida expansão vive em contato próximo com os humanos não apenas ao entardecer, mas também durante o dia – um fato que se revela uma característica perigosa.[44,45] Em um mundo marcado pela globalização e tendências de urbanização – o que implica em uma fonte potencial de perturbações causadas pelo homem no equilíbrio ecológico, além da expansão das viagens aéreas internacionais – o vírus Zika parece ter uma grande capacidade de se espalhar (como os vírus dengue e chikungunya) e colonizar novos ambientes.[41,43] Assim, essas três arboviroses infelizmente têm o potencial de causar grandes epidemias e nível local, regional ou mesmo global.[22,43]

Esse artigo foi traduzido do francês pelo autor, Dr. Marc Gozlan, um jornalista médico vivendo em Paris, França. O texto francês original “ Zika: histoire d'un virus émergent ” pode ser encontrado no blog do Dr. Gozlan, “ Réalités Biomédicales ”.

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