Corrida para as Américas
No início de 2015, pacientes apresentando uma “síndrome semelhante a dengue” foram atendidos no serviço de saúde pública de Natal, no estado do Rio Grande do Norte no nordeste do Brasil.[31] Um médico e especialista em doenças infecciosas avaliou os pacientes, cujos resultados de exames mostraram uma infecção viral não-dengue e não-chikungunya. Até fevereiro de 2015, a infecção pelo vírus Zika afetou mais de 6000 pessoas em seis estados do nordeste do Brasil.
Em março de 2015, o Laboratório de Virologia Molecular do Instituto Carlos Chagas, da Fundação Oswaldo Cruz, estado do Paraná, Brasil, recebeu 21 amostras de soro de pacientes com sintomas semelhantes a dengue, na fase aguda.[31] O vírus Zika foi detectado por ensaio de reação em cadeia de polimerase com transcriptase reversa no soro de oito pacientes. Os resultados foram confirmados por sequenciamento do DNA viral. Esses casos representavam a primeira transmissão autóctone do vírus Zika nas Américas.[31]
A análise filogenética das sequências das cepas do vírus Zika brasileiro apontam grande semelhança com sequências da linhagem asiática. Elas mostraram que a cepa mais parecida com a que emergiu no Brasil foi o vírus que foi isolado de amostras dos casos de pacientes na Polinésia Francesa, e transmitido pelas Ilhas do Pacífico. As cepas do Brasil e Polinésia Francesa pertencem à linhagem asiática.[32]
Foi postulado por pesquisadores brasileiros da Fundação Oswaldo Cruz que o vírus Zika foi introduzido no Brasil durante a Copa do Mundo de futebol em 2014,[31] embora nenhum país do Pacífico com endemia de Zika tenha competido. Didier Musso, um pesquisador do Institut Louis Malardé (Papeete, Taiti, Polinésia Francesa), propôs uma hipótese alternativa, dizendo, “Em agosto de 2014, a corrida de canoa Va'a World Sprint Championship aconteceu no Rio de Janeiro, Brasil. Quatro países do pacífico (Polinésia Francesa, Nova Caledônia, Ilhas Cook e Ilha de Páscoa), nos quais o vírus Zika circulou em 2014, tiveram equipes participando em várias categorias”.[33] O vírus Zika pode ter sido introduzido no Brasil durante esse evento.
Atualmente, no Brasil, o vírus Zika circula juntamente com os vírus do dengue e chikungunya. Devido a magnitude do surto atual, o Brasil decidiu deixar de contabilizar os casos de infecção pelo vírus Zika.[34] As autoridades nacionais estimam que, desde o início do surto, ocorreram entre 440.000 e 1.300.000 casos autóctones de infecção pelo vírus Zika.[35]
Relatórios recentes do Ministério da Saúde no Brasil sugerem um aumento não usual em casos de microcefalia (com um fator de aproximadamente 20) entre recém-nascidos na região nordeste do Brasil, o que indica uma possível associação entre a infecção zika na gestação e microcefalia.[36] Em 11 de novembro de 2015, o Ministério da Saúde declarou uma emergência de saúde pública, visto que os casos de microcefalia continuaram a aumentar.[37]
Em 1º de fevereiro de 2016, a OMS declarou que a associação recente da infecção por Zika e os casos de microcefalia e outras condições neurológicas (por exemplo, a síndrome de Guillain-Barré) constituía uma emergência de saúde pública de âmbito internacional.[38] Os pesquisadores estão engajados em avaliar o papel do vírus Zika nas lesões graves no cérebro fetal. Nenhuma evidência científica confirma, até agora, a ligação entre o vírus Zika e a microcefalia ou síndrome de Guillain-Barré.
Atualmente, nas Américas, a transmissão autóctone do vírus Zika foi relatada em Barbados, Bolívia, Brasil, Colômbia, Curaçao, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana Francesa, Guadalupe, Guatemala, Guiana, Haiti, Honduras, Jamaica, Martinica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Porto Rico, São Martin, Suriname, Ilhas Virgens Americanas, e Venezuela.[39,40] Na área do Pacífico, o vírus Zika está presente em Fiji, Tonga, Samoa, Ilhas Salomão, e Vanuatu.[40] Em setembro de 2015, o vírus chegou em Cabo Verde, a 560km do Senegal.[41] Isso não fica longe de seu presumido lar ancestral na África Oriental[41] (Figuras 9 e 10).
Figura 9. Países e territórios com circulação autóctone do vírus Zika. Imagem cortesia do Centro de Controle e Prevenção de Doenças
Figura 10. Disseminação geográfica do vírus Zika na África e Ásia.[15] As linhas direcionadas conectam as fontes mais prováveis e localizações alvo das linhagens virais (setas), com amplitudes proporcionais às probabilidades posteriores e valores mostrados em vermelho. Apenas rotas plausíveis com probabilidades acima de 50% são mostradas. As introduções distintas no Senegal e Costa do Marfim estão representadas por diferentes cores. O tempo estimado para o ancestral mais recente das cepas de diferentes países é mostrado, com intervalos de tempo possíveis entre parênteses, e poderiam ser interpretados como o ano mais antigo possível de introdução da linhagem na localidade.
Citar este artigo: Zika: a história de um vírus emergente - Medscape - 15 de março de 2016.
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