Zika: a história de um vírus emergente

Dr. Marc Gozlan

Notificação

15 de março de 2016

Que mosquitos transmitem Zika?

Durante os 20 anos subsequentes, o vírus Zika foi isolado de numerosas espécies de mosquitos Aedes na África (A. africanus) e Malásia.[8,9,13] Estudos de pesquisa sorológica, entomológica e virológica indicam que as infecções por Zika ocorreram em muitos países na África Ocidental e Oriental (Burkina Faso, Camarões, República Centro-Africana, Egito, Etiópia, Gabão, Costa do Marfim, Quênia, Moçambique, Nigéria, Senegal, Serra Leoa, Somália, Tanzânia, e Uganda).[14,15] Entre 1968 e 2002, um total de 606 cepas virais (incluindo 10 que foram isoladas em pacientes na África Central e Oriental) foram relatadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Além disso, infecções pelo Zika foram relatadas na Ásia (Camboja, Indonésia, Malásia, Micronésia, Paquistão, Tailândia, e Vietnã).[16]

Na África, o vírus Zika foi provavelmente mantido em um ciclo silvestre envolvendo primatas não humanos e mosquitos, com epizootias cíclicas em macacos relatados na Uganda. Os humanos são os hospedeiros acidentais típicos.[17] Acredita-se que o vírus Zika enzoótico também é mantido em um ciclo de transmissão macaco/mosquito. No entanto, estudos sorológicos mostram que anticorpos contra o Zika são detectados em inúmeras outras espécies animais, como búfalos aquáticos, elefantes, cabras, hipopótamos, corsas, veados, leões, ovelhas, roedores, gnus e zebras.[17]

O vírus Zika é transmitido para pessoas primariamente pela picada de um mosquito Aedes infectado – A. aegypti A. albopictus em regiões tropicais. Esses são alguns mosquitos que transmitem dengue e chikungunya.

Um vírus emergente e a epidemia

Figura 6. Ilha Yap (Micronésia). Imagem de iStock

Em 1977, infecções pelo vírus Zika foram relatadas em sete pessoas em Java Central, Indonésia.[12] Trinta anos depois, o vírus Zika foi identificado pela primeira vez fora da África e Ásia, durante uma epidemia de erupção cutânea, conjuntivite e artralgia na Ilha Yap (Estados Federados da Micronésia)[18,19] (Figura 6).

Durante o primeiro surto documentado de Zika em Yap, ocorreram 48 casos confirmados, e 73% dos habitantes com mais de 3 anos tiveram evidência sorológica de infecção recente pelo vírus Zika. Não foram relatados óbitos, sinais de hemorragia ou hospitalizações.[18]

Entre a descoberta do Zika em 1947 e 2007, apenas 14 infecções humanas esporádicas pelo vírus Zika foram documentadas, apesar de sua distribuição geográfica aparentemente ampla na África e Ásia.[15] Desconhecido antes da década de 1950, o vírus Zika foi considerado um vírus emergente desde 2007,[20] o mesmo ano em que seu sequenciamento genético completo foi publicado[21] (Figura 7).

Figura 7. Micrografia eletrônica de transmissão do vírus Zika, que é membro da família Flaviviridae. As partículas virais têm 40 nm de diâmetro, com um envelope externo e um núcleo interno denso. A seta identifica uma partícula viral única. Imagem cortesia do Centro de Controle e Prevenção de Doenças

Em 2013, o vírus Zika emergiu na Polinésia Francesa no Pacífico Sul, onde o dengue é endêmico. A epidemia se espalhou pelo arquipélago a partir de outubro de 2013, onde o vírus Zika foi identificado como a causa de uma grande epidemia de síndromes que incluíam febre leve, erupção maculopapular, e conjuntivite não purulenta em pacientes que testaram negativo para o vírus dengue. A epidemia se espalhou rapidamente e afetou cinco arquipélagos, que tinha 270.000 habitantes.[22]

Entre outubro de 2013 e março de 2014, a Polinésia Francesa experimentou um grande surto de infecção pelo vírus Zika, com 28.000 casos estimados em fevereiro de 2014 (cerca de 11% da população).[23] Essa estatística provavelmente está subestimada pois numerosas infecções são assintomáticas ou associadas a sintomas leves.

Em contraste com a epidemia da Ilha Yap, o surto na Polinésia Francesa foi complicado pela síndrome de Guillain-Barré.[12] O primeiro caso da síndrome de Guillain-Barré foi relatado como ocorrendo imediatamente após uma infeção pelo vírus Zika (concomitante com uma epidemia de dengue causada pelos sorotipos 1 e 3).[23]

Onde quer que vetores sejam encontrados

Figura 8. Mosquitos em uma placa de petri do Instituto Fiocruz no Recife, Pernambuco, Brasil. Imagem cortesia de AP Photo/Felipe Dana

No fim de 2013, casos de infecção pelo vírus Zika foram relatados na Nova Caledônia, outro território francês no Pacífico Sul.[24] O vírus Zika foi importado para Nova Caledônia a partir da Polinésia Francesa, onde os primeiros casos autóctones foram relatados em janeiro de 2014, chegando a um total de 1400 casos em julho de 2014. O vírus continuou se espalhando pelo Pacífico Sul, chegando às Ilhas Cook, Ilha de Páscoa, Vanuatu, Ilhas Salomão, e Fiji.[22,25]

Em 2014, infecções pelo vírus Zika foram relatadas no Japão, França e Noruega. Um caso importado das Ilhas Cook foi relatado na Austrália. Uma infecção aguda pelo vírus Zika também foi diagnosticada em um viajante alemão que voltava da Tailândia.[26,27,28,29,30] Todos esses casos enfatizam a capacidade do vírus Zika de se espalhar por áreas onde não é endêmico, mas sim onde o mosquito vetor pode estar presente. Parece que qualquer área com os vetores certos carrega um risco para a infecção pelo vírus Zika (Figura 8).

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