Zika: a história de um vírus emergente

Dr. Marc Gozlan

Notificação

15 de março de 2016

Primeira infecção experimental em humanos

O relato de caso de Bearcroft não menciona aprovação pelo comitê de ética ou consentimento do paciente sobre indução deliberada de infecção em um indivíduo saudável. Poderia esse voluntário de pesquisa ter sido ele mesmo? O voluntário é descrito como um homem europeu de 34 anos que residiu na Nigéria por um período de 4 meses e meio antes da inoculação e que não havia contraído nenhuma infecção conhecida durante o período. O voluntário havia recebido vacina contra febre amarela três meses antes de viajar para a Nigéria.[7]

O material inoculado compreendia material reconstituído de cérebro de camundongo infectado pela cepa do vírus Zika do leste da Nigéria, que foi preservado em ampolas seladas na temperatura de -50°C por 2 anos. No quinto dia após a inoculação, o braço esquerdo do voluntário foi exposto a uma carga de mosquitos fêmeas, e 95 insetos ingeriram o sangue do voluntário. No sétimo dia após a inoculação, o paciente foi exposto uma segunda vez a uma segunda carga de insetos, e 13 mosquitos fêmeas se alimentaram. Os insetos hematófagos potencialmente infectados foram colocados juntos a camundongos, mas os mosquitos A. aegypti falharam em transmitir a infecção a camundongos.[7]

Depois de um período de incubação de 82 horas, o voluntário humano apresentou uma febre baixa e de curta duração (38°C no quinto dia), com cefaleia, mal-estar, náuseas e vertigens, mas sem evidências de envolvimento de um tecido em particular. Como no caso da garota de 10 anos no leste da Nigéria, descrito por MacNamara 2 anos antes, o vírus Zika foi isolado do sangue do voluntário durante a fase aguda da infecção. Na manhã do sétimo dia, o paciente sentia-se melhor e sua temperatura retornou ao normal.[7]

Em 1958, duas outras cepas do vírus Zika foram isoladas em mosquitos na Floresta Lunyo, entre a Floresta Zika e Entebbe. Como a Floresta Zika, Lunyo fica situada nas margens de um lago na península de Entebbe, mas a floresta é cerca de 6 metros mais baixa que Zika.[8]

Figura 5. Uma torre de aço de 36 metros para a coleta de mosquitos sobre a copa da floresta. Fotografia por Duncan Whitfield, EACSO. Haddow AJ, et al. Bull World Health Organ. 1964;31:57-69.[9]

Em 1962-1963, novas cepas no vírus Zika foram isoladas de mosquitos arbóreos na Floresta Zika. Três de cinco cepas vieram de mosquitos infectados coletados sobre a copa da floresta durante 3 horas após o pôr-do-sol. Essas observações mostraram que esses insetos podem se disseminar por grandes distâncias onde correntes de convecções ocorrem ao nível do topo das árvores[9] (Figura 5).

Durante a coleta dos insetos, David Simpson, um biólogo de 28 anos do Instituto de Pesquisa Viral da África Ocidental, em Entebbe, ficou doente.[10] Simpson reclamou de uma cefaleia leve de noite, e na manhã seguinte apresentou uma erupção difusa, rosada, não pruriginosa cobrindo face, tronco e braços. Simpson também descreveu uma dor leve nas costas e coxas. No dia seguinte, a erupção se espalhou por seus membros, incluindo palmas das mãos e sola dos pés. Por volta do meio-dia, sua temperatura era de 37,5°C. A erupção desapareceu totalmente no quinto dia.

A fonte dessa infecção humana nunca será conhecida com certeza, pois o pesquisador visitou a Floresta Zika 23 dias antes de ficar doente e foi picado por insetos no momento em que as cepas virais estavam sendo isoladas dos mosquitos coletados na floresta. O biólogo também lidou com essas cepas no laboratório. Dada a natureza leve dos sintomas, Simpson comentou que “se foi a infecção típica pelo vírus Zika, não é surpreendente que, sob circunstâncias normais, o vírus não seja isolado frequentemente dos homens”.[10] O segundo e terceiro casos da infecção pelo vírus Zika, relatados em 1973[11] e 1975,[12] também foram infecções relacionadas ao laboratório.

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