Zika: a história de um vírus emergente

Dr. Marc Gozlan

Notificação

15 de março de 2016

Um vírus previamente desconhecido

Os pesquisadores relataram o isolamento de um vírus que nunca havia sido registrado.[1] Eles descreveram o isolamento do vírus Zika do sangue de um macaco rhesus sentinela com febre, preso na cobertura da Floresta Zika, e um segundo isolamento realizado em um lote de mosquitos A. africanus coletados em janeiro de 1948 na mesma floresta. Testes de neutralização cruzada indicaram que o vírus Zika não era relacionado ao vírus da febre amarela, o agente que haviam estudado por vários anos.[1]

Os pesquisadores decidiram testar o soro humano para a presença de anticorpos contra o vírus Zika. Essa pesquisa piloto soro-epidemiológica mostrou que 6,1% das 99 amostras humanas testadas foram positivas; elas neutralizaram mais de 100 LD50 do vírus (“LD” refere-se a dose letal em camundongos). [4] O vírus Zika também se mostrou altamente neurotrópico em camundongos. Depois da inoculação cerebral, a histopatologia dos roedores sacrificados no primeiro dia dos sinais de infecções mostrou alterações patológicas no sistema nervoso central.[4]

“Vários estágios de infiltração e degeneração incluindo amolecimento generalizado haviam sido observados no cérebro de alguns camundongos; degeneração neuronal e infiltração celular também foram encontradas”, escreveu Dick em 1952. Ele acrescentou: “As evidências disponíveis indicam que o vírus Zika não é idêntico a nenhum vírus conhecido. O alcance limitado de hospedeiros, a dificuldade de adaptação do vírus ao camundongo, e a infecção inaparente em macacos após a inoculação com o vírus sugere uma similaridade com o vírus da dengue”.[4]

O neurotropismo marcante do vírus Zika em camundongos contrastava com a falta de neurotropismo em macacos, ratos do algodão, porquinhos-da-índia e coelhos. Não se sabia se o vírus Zika produziria uma doença clínica ou infecção latente em humanos, mas a ausência de uma doença reconhecida relacionada ao Zika não significava que seria uma doença rara ou desimportante.[4]

Foi somente em 1954 (dois anos depois do primeiro isolamento do vírus Zika) que um médico relatou a primeira descrição clínica da infecção humana causada pelo vírus Zika. MacNamara[6] relatou o caso de uma garota africana de 10 anos de idade que apresentava febre e cefaleia, chegando a apresentar temperaturas de 38,3°C no quinto dia de doença. Seis camundongos receberam inoculação intracerebral com o soro da menina. Quatro dos camundongos ficaram doentes no dia 7 e um no dia 8, e todos morreram. Exames mostraram que o soro de um macaco rhesus imunizado pela inoculação do vírus Zika era capaz de neutralizar os vírus isolados do cérebro dos camundongos. A resposta sorológica foi pequena na garota, e ela se recuperou totalmente em seis semanas.

Ao mesmo tempo em que o vírus Zika era isolado nessa garota de 10 anos de idade, infecções pelo vírus foram encontradas em dois homens africanos, que apresentaram icterícia transitória e aumento de anticorpos séricos contra o vírus. Todos os três pacientes foram atendidos no leste da Nigéria durante um surto de icterícia, suspeito de ser causado por febre amarela.[6]

Naquela época, os pesquisadores suspeitavam que o vírus Zika poderia ser transmitido a humanos por mosquitos, mas não se sabia quase nada sobre a apresentação clínica da infecção em humanos. Os macacos rhesus mostravam resposta clínica mínima à infecção pelo Zika. William Bearcroft, um pesquisador dos Laboratórios de Pesquisa Médica do West African Council em Lagos, Nigéria, queria saber mais. Bearcroft decidiu inocular um voluntário humano com o vírus. Essa infecção experimental foi relatada em 1956, quatro anos depois do primeiro isolamento do vírus Zika em macacos rhesus e mosquitos[7] (Figura 4).

Figura 4. Artigo do Bearcroft no Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene.[7]

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