A Floresta Zika, 1947
Em Lugandan (principal idioma da Uganda), a palavra “Zika” significa “coberto”. A Floresta Zika é um cinturão estreito e denso de árvores grandes, altas, com copas descontínuas, situadas ao longo da margem do Lago Victoria próximo de Entebbe, cerca de 25km a oeste da capital de Uganda, Kampala[1] (Figuras 1 e 2).
Figura 1. Floresta Zika, próximo a Entebbe, Uganda. Imagem cortesia de AP Photo/Stephen
Por 10 anos, uma equipe de pesquisadores do Instituto de Pesquisa Viral da África Ocidental, no Estado de Bwanba, oeste da Uganda, liderados por Alexander J. Haddow, tem realizado estudos sobre a epidemiologia da febre amarela na Floresta Zika.[2] Cinco anos antes, o Dr. A.F. Mahhafy isolou o vírus da febre amarela de um paciente africano e do Aedes simpsoni, um mosquito silvestre encontrado em plantações de banana.[3] O isolamento repetido do vírus da febre amarela mostrou que ele circulava em um estado enzoótico em macacos na floresta, sua população hospedeira silvestre primária. O Dr. Mahhafy e seus colegas iniciaram estudos do ciclo não-humano da febre amarela, na busca do vetor para a transmissão do vírus em macacos no oeste da Uganda.
Para estudar o ciclo silvestre de transmissão do vírus da febre amarela entre macacos e mosquitos (no qual um mosquito se torna infectado ao picar um macaco e então reinjeta o vírus em outro macaco), virologistas e entomologistas começaram um programa sentinela com o macaco rhesus na Floresta Zika em 1946. Eles escolheram uma área onde havia um grande número de macacos e larvas do mosquito Aedes africanus. Os mosquitos permaneciam acima da cobertura da floresta quando a noite caía, enquanto os macacos ficam ao nível do solo durante o dia e sobem nas árvores para dormir à noite. Inicialmente, os macacos foram mantidos em gaiolas em plataformas de madeira com 12-18 metros de altura na copa das árvores. No entanto, quando os pesquisadores descobriram que os mosquitos não entravam nas gaiolas dos macacos, eles foram deixados presos apenas por fios nas plataformas das árvores.[4] A temperatura dos animais foi monitorada diariamente.
Figura 2. Gerald Mikusa, guarda e guia turístico, posa na Floresta Zika. Imagem cortesia AP Photo/Stephen Wandera
Cerca de 41.168 mosquitos foram coletados em 1947, incluindo 1140 mosquitos A. africanus.[5] Em 19 de abril de 1947, a temperatura de um dos macacos (rhesus 766) foi registrada como 40°C (aumentando de 39°C na véspera). Rhesus 766 foi levado para o laboratório para observação, embora não apresentasse anormalidades além da febre leve.
Foi colhida uma amostra de sangue no terceiro dia da febre. O soro do rhesus 766 foi injetado no cérebro e no peritônio de dois grupos de camundongos albinos Swiss. Os camundongos que receberam injeção intraperitoneal não apresentaram anormalidades durante o período de observação de 30 dias. Em contraste, todos os camundongos infectados por via intracerebral ficaram doentes no 10º dia após a inoculação. Outro macaco (rhesus 771) foi inoculado com o soro do rhesus 766, mas rhesus 771 não ficou febril ou doente durante os 30 dias de observação.[1] Os pesquisadores George W. Dick, Stuart F. Kitchen, e Alexander J. Haddow tiveram sucesso em isolar um agente transmissível filtrável do cérebro dos camundongos doentes.[1]
Citar este artigo: Zika: a história de um vírus emergente - Medscape - 15 de março de 2016.
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