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Remuneração e satisfação dos médicos brasileiros – 2020

Leoleli Schwartz | 28 de maio de 2021 | Autores

O primeiro ano da pandemia de covid-19 no Brasil foi um ano de desafios, sofrimento e muito, muito trabalho para os médicos que foram para a linha de frente nos hospitais de um país marcado por imensas desigualdades sociais e combalido por uma crise sanitária sem precedentes na nossa história; mas aqueles que não foram para a linha de frente também sentiram o impacto da crise, enfrentando reduções na jornada de trabalho, congelamento de salários, bem como a difícil missão de prestar atendimento médico à distância para os pacientes que não necessariamente haviam sido acometidos pela covid-19, mas cujas demandas de saúde ainda precisavam ser atendidas.

A pesquisa Remuneração e Satisfação dos Médicos Brasileiros de 2020 foi enviada por e-mail para todos os médicos registrados no site do Medscape em português; 1.342 profissionais espalhados pelas cinco regiões do país participaram do levantamento. A maioria dos respondentes foi composta de homens (66%), brancos (75%) e com atuação na região Sudeste (57%). A média de idade dos participantes foi de 42 anos, 44% informaram trabalhar como funcionários e 42% disseram trabalhar em hospital.

Em relação à especialidade dos participantes, o primeiro lugar ficou com os pediatras e psiquiatras (8% cada), seguidos por cardiologistas (7%), anestesistas e ginecologistas e obstetras (5% cada), e generalistas, intensivistas e médicos de família (4% cada).

Veja os principais resultados da pesquisa nos slides a seguir.

Remuneração e satisfação dos médicos brasileiros – 2020

Leoleli Schwartz | 28 de maio de 2021 | Autores

Tempo livre foi luxo em 2020

De acordo com as respostas dos médicos que participaram da pesquisa, houve um aumento de cinco horas na média de horas trabalhadas por semana após o início da pandemia. Em relação ao tempo dedicado ao atendimento de pacientes, a média subiu de 37,0 horas por semana em 2019 para 40,1 em 2020.

O tempo gasto com outras atividades durante o horário de trabalho (burocracia, trabalho gerencial/administrativo, participação em organizações profissionais, leitura, pesquisa, ensino etc.) também aumentou de 16 horas por semana em 2019 para 21,3 em 2020.

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Leoleli Schwartz | 28 de maio de 2021 | Autores

A telemedicina ainda engatinha

A maioria dos profissionais que responderam à pesquisa (61%) disse que não realiza consultas via telemedicina, dentre esta parcela de profissionais, 54% afirmaram que não têm planos de oferecer a modalidade de atendimento.

Dos 39% que informaram prestar esse tipo de atendimento, 53% referiram que fazem consultório e, quando indagados sobre a experiência com as consultas on-line, 69% se disseram satisfeitos. A maioria dos médicos que atende via telemedicina (42%) indicou um aumento de até 20% na procura por essas consultas durante a pandemia.

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Leoleli Schwartz | 28 de maio de 2021 | Autores

Os ganhos aumentaram, mas…

Ao contrário do que foi indicado pelos médicos portugueses que responderam ao mesmo questionário, a média da renda anual dos participantes brasileiros aumentou 16 mil reais em 2020. Aqui, é importante ressaltar que em nenhum momento da pandemia de covid-19 foi decretado isolamento mandatório restrito em todo o Brasil – a média total de horas trabalhadas por semana em relação a 2019 aumentou de 48 para 55.

A análise dos dados que compararam a remuneração de homens à de mulheres, bem como a de generalistas à de especialistas, indicou diferenças significativas: a renda dos médicos representou, em média, o dobro da renda das mulheres e, na comparação entre generalistas e especialistas, o segundo grupo ganhou 30% a mais do que o primeiro.

No geral, 63% dos participantes informaram que, em relação a 2019, seus rendimentos aumentaram ou permaneceram iguais em 2020. Entre os 37% que apontaram diminuição da renda, 86% atribuíram a queda à pandemia de covid-19.

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Leoleli Schwartz | 28 de maio de 2021 | Autores

Quase metade dos médicos não recebe benefícios

Quando indagados sobre o recebimento de benefícios (p. ex., seguro de saúde e férias remuneradas), 51% dos médicos generalistas e 43% dos especialistas informaram não receber nenhum benefício. O alto percentual de médicos nesta categoria (44% dos respondentes) pode ser explicado, em parte, pelo número de participantes que disse atuar como profissional liberal (prestando atendimento médico em consultório particular ou em clínicas ou hospitais).

Entre os médicos que indicaram receber benefícios trabalhistas, afastamento remunerado, plano de aposentadoria e seguro saúde foram as opções mais assinaladas.

Remuneração e satisfação dos médicos brasileiros – 2020

Leoleli Schwartz | 28 de maio de 2021 | Autores

Luz no fim do túnel

Em 2020, muitos médicos tiveram suas jornadas de trabalho reduzidas (22%) e seus salários congelados (18%) por conta da pandemia. Alguns meses após o início da pandemia, a jornada de 52% dos participantes que responderam ter sido afetados foi reestabelecida, assim como 25% voltaram a ganhar o mesmo de antes da pandemia.

Por outro lado, 41% dos especialistas que fazem consultório ou atendem em clínicas particulares disseram que houve uma redução sustentada na quantidade de pacientes atendidos por semana, o que certamente impactou a remuneração desses profissionais. A maioria dos médicos que sofreram este impacto compartilhou um sentimento de otimismo: 49% acreditam que dentro de um ano já terão recuperado o nível de renda pré-covid-19.

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Leoleli Schwartz | 28 de maio de 2021 | Autores

Patrimônio estimado

Em uma das perguntas os participantes foram solicitados a fazer uma estimativa rápida de seu patrimônio líquido atual. A média total foi de 488 mil reais. Nos recortes por sexo, atuação e faixa etária, a média dos valores informados mostrou diferenças consideráveis entre o patrimônio estimado dos médicos especialistas, homens e Baby Boomers (de 55 a 73 anos) em comparação com médicos generalistas, mulheres e Millennials/Geração X, respectivamente.

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Leoleli Schwartz | 28 de maio de 2021 | Autores

Olhos no futuro

Quase 7 em cada 10 médicos que responderam à pesquisa têm uma meta do quanto gostaria de ter guardado quando chegar a uma certa idade. Quando o assunto é se preparar para o futuro, aliás, a maior parte parece estar no caminho certo: 53% disseram gastar menos do que ganham e 55% aplicam mais de dois mil reais mensalmente em um fundo de pensão ou fazem algum outro tipo de investimento.

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Leoleli Schwartz | 28 de maio de 2021 | Autores

Gastos e dívidas: foco na família

Escola particular, gastos gerais com os filhos e despesas com saúde foram, assim como no levantamento de 2019, os itens mais citados na questão sobre despesas e/ou dívidas. Quando perguntados sobre se haviam tido alguma perda financeira significativa em 2020, 63% dos participantes afirmaram que não. Entre os que perderam dinheiro, 13% o fizeram em maus investimentos ou no mercado de ações, e o mesmo percentual atribuiu a perda a questões profissionais, por exemplo, problemas nos negócios, mudanças na política de reembolso, ou mudanças no consultório.

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Leoleli Schwartz | 28 de maio de 2021 | Autores

Remuneração precisa aumentar

Mesmo sem ter alcançado os índices de 2019 no que tange a insatisfação em relação aos proventos na medicina, mais da metade dos participantes da pesquisa não considera sua remuneração justa. Quando perguntados sobre o grau de satisfação com o próprio desempenho no trabalho, 8 em cada 10 respondentes afirmaram estar satisfeitos ou muito satisfeitos, o que pode ter influenciado as respostas à pergunta sobre o quanto a mais deveriam ganhar por ano: 60% afirmaram que deveriam ganhar de 11% a 50% a mais do que ganham atualmente.

Remuneração e satisfação dos médicos brasileiros – 2020

Leoleli Schwartz | 28 de maio de 2021 | Autores

Satisfação e recompensa

"Ganhar bem fazendo o que gosto" foi a opção mais escolhida (27%) na questão sobre os aspectos mais gratificantes da medicina. O segundo item mais apontado pelos respondentes – e o mais citado na pesquisa de 2019 – foi "ser bom no que faço, encontrando respostas, fazendo diagnósticos".

No recorte por faixa etária, "gratidão por parte dos pacientes" e "consciência de estar ajudando o próximo" foram as opções mais apontadas entre os participantes de 55 a 73 anos de idade (Baby Boomers), vide o que escreveu este cirurgião veterano:

"É muito gratificante poder ensinar cirurgia aos residentes e poder operar pacientes do SUS que não têm acesso nenhum a um tratamento médico digno."

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Leoleli Schwartz | 28 de maio de 2021 | Autores

Carga de trabalho é a principal dificuldade

Assim como no levantamento de 2019, o excesso de trabalho liderou o ranking dos aspectos mais difíceis da profissão, de acordo com os participantes. Em seguida, os itens apontados foram "dificuldades de obter um reembolso justo ou de negociar com as seguradoras e os planos de saúde" e "lidar com pacientes difíceis". O excesso de regras e regulamentos, e o medo de ser processado também foram opções bastante indicadas como aspectos negativos da medicina como carreira.

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Leoleli Schwartz | 28 de maio de 2021 | Autores

Fariam tudo de novo

Mesmo com os desafios trazidos pela pandemia de covid-19, quase 8 em cada 10 respondentes disseram que não mudariam de profissão se pudessem voltar no tempo. Também foram maioria os que optariam pela mesma especialidade, bem como os que recomendariam a profissão aos próprios filhos.

Entre os que afirmaram que não escolheriam novamente a medicina como profissão, os profissionais que atuam em hospital predominaram no recorte por local de trabalho (24%) e os Millennials (25 a 39 anos) lideraram no recorte por faixa etária (26%).

"É bastante frustrante ser médico no Brasil, pois lidamos com escassez de recursos, disparidade de oportunidades e tratamentos de acordo com poder aquisitivo e influência, além de negligência, pouco embasamento científico, remuneração aquém do esperado, alta carga de trabalho e quase nenhuma rede de apoio à saúde física e mental", desabafou uma jovem médica.

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Leoleli Schwartz | 28 de maio de 2021 | Autores